domingo, 23 de março de 2014

As Zonas de Indiscernibilidade - Do Real ao Imaginário

Se a cada manhã a agitação luminosa ao se encontrar com os corpos opacos, produz imagens que irão se formar na retina, após um piscar de olhos, é no processo coordenado pela memória que essa imagem se torna capaz de ser reconhecida através das características comuns que se reproduzem no instante seguinte. Separadas por instantes sucessivos produzidos pela memória elas se separam uma das outras a medida que vem ocupar um lugar no quadro produzido pelo observador. Cada quadro que o sujeito tem diante de si é um fotograma animado pela memória, que é capaz de recuperar o fotograma anterior e reproduzi-lo no instante seguinte onde o sujeito pode verificar as semelhanças e diferenças entre as imagens do quadro. Olhando para o lado de fora do interior da livraria onde agora escrevo, tem-se a visão de um escadaria que no seu cume se abre ao exterior. Não se vê portas ou janelas mas apenas uma grossa coluna que não se sabe estar de que lado. Vez por outra alguns transeuntes se desviam do trajeto transversal por onde se movem, passam ao lado da coluna e começam a descer os degraus. Só nesse instante se poder ter certeza de estarem no interior que se desdobra até o sofá de onde tudo observo.

 

A sensação da dúvida que permanece separada pela coluna lá no alto só é interrompida pela visão dos pés outrora escondidos e que só se dão a ver no primeiro degrau escada abaixo. A tal coluna se sobressai pela constatação de que para além dela avista-se menos das pernas, quanto mais estas são lançadas na direção oposta da escada, o que acaba sendo definitivo para dimensionar os lados, já que daqui não se enxerga o chão da rua ou o assoalho do lado de dentro. A medida que as pernas avançam para cá da coluna vão ficando mais a mostra, até que no limiar do primeiro degrau do lado de cima revelam os pés que sustentam seus movimentos. Quanto menos pernas se pode ver, supõe-se mas distantes do lado de dentro os corpos. Alguns deles só exibem da cintura para cima e no limite oposto do  lado de fora percebe-se somente cabeças em movimento  de mão dupla. Quando uma das cabeças ambulantes, repentinamente, mudam sua trajetória, pouco a pouco se pode notar corpos surgindo debaixo delas, revelando pernas que após cruzar a coluna iniciam a descida do primeiro degrau, finalmente fazendo aparecer os pés que os levarão para o interior onde estou a observa-los. 

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Por um mero acidente, após trocar meu assento no subsolo por outro em uma mesa localizada dois andares acima, ponho-me diante de um vidro disposto diante da porta de entrada. As mesas que ocupam toda a extensão de sua lateral torna-o opaco, o suficiente para refletir imagens como um espelho. Só aí pude ver a calçada do lado de fora por onde se movia tudo do lado de lá da pilastra. Curiosamente reparo que a perspectiva se invertera. Agora, quanto mais distante da pilastra para o lado de fora, os corpos vão surgindo abaixo das cabeças até aparecerem por completo em um ponto qualquer na metade da calçada e começar a sumir aos pouco, sobrando apenas as pernas do joelho para baixo ao avançarem até o exato extremo onde antes apenas se viam cabeças em movimento.  No limite do lado de fora refletido pelo vidro, a dança das cabeças dava lugar a de pedaços de pernas com pés. A pilastra continuava compondo minha visão, só que agora já se sabia que estava do lado de dentro. Como a escadaria sumira da cena, a pilastra passava a limitar o ponto onde as cabeças sumiam depois de cruza-las interior adentro. 

 

Passo a observar os dois extremos e o ponto onde as imagens se flexionam. Do lado de lá, os pés que carregam apenas pernas do joelhos para baixo,  começam a dar sinais do resto do corpo imediatamente após mudarem de direção. Ao se moverem em diagonal cruzavam o ponto na metade da calçada onde se era possível ter a visão dos corpos completos, até que no caminho em direção da pilastra iam se reduzindo novamente à cabeças solitárias que desapareciam por completo do lado de dentro da livraria. Como o olhar que a tudo fitava vinha do mesmo sujeito, todo o resto estava dependente do ponto de vista desse sujeito em relação aos demais elementos que participavam do quadro, exceto quando um outro anteparo gerava reflexos que mediava as imagens além dos corpos opacos, cujas imagens eram impressas na retina de quem os observava. Imagens mediadas por anteparos fora do sujeito; cópia de cópias; simulacros que alteram a visão. É a partir desses simulacros que se introduz no processo a equivocidade e a indeterminação do que se é capturado pela percepção sensível, quer em forma de imagens, sons,  ou texturas. Cópias produzidas para além dos anteparos do sujeito, capazes de interagir como o esquema de reprodução das sensações e da fixação de identidades pela memória, como que num jogo de espelho onde se é possível liberar um elemento da memória que será fundamental para aquilo que nos propomos aqui. A saber: a imaginação.

 

O meio natural é o palco onde misturam-se, animais, vegetais, microrganismos, partículas e toda uma galáxia a insinuar tendências; “apetite” e “esforço” pelo qual cada coisa persevera no seu ser, insiste e subsiste, e onde cada uma dessas coisas não param de emitir signos que são sintetizados pelo sujeito através de sua percepção sensível,  memória e abstração, traduzidos em significados e  ditos pela força da imaginação. Podemos aprofundar esses processos operados pelas faculdades do sujeito dividindo tais sínteses em passivas e  ativas, referindo às faculdades passivas a sensação e às ativas a memória.  A partir daí subdividimos a memória em centro produtor de duas séries distintas, uma na ordem da razão e outra da imaginação. É através da memória como uma faculdade ativa que os sujeitos humanos se distinguem das demais coisas, para as quais a memória é o conjunto das intervenções que constituem sua existência. Quando tomamos a memória como uma centro produtor da razão,  nos referimos a capacidade de reunir registros que permitirá o sujeito abstrair o mundo e através da razão representa-lo de forma a estabelecer as medidas através das quais  poderá agir, produzindo os meios onde passa a ser mover à luz das necessidades geradas por cada uma das finalidades específicas. Já no que se refere a ordem da imaginação, a memória se coloca como um centro de registro de imagens produzidas pelas associações dos signos emitidos pelas coisas com os signos produzidos pelo sujeito que significa o mundo ao redor de si pela linguagem. O sujeito pode, assim, ultrapassar o dado, através das associações da memória que os organizam como um sistema articulado, impondo a essas articulações, pela imaginação,  uma constância que elas não tem por si mesmo.  Se é pela razão que me oriento no sentido de produzir medidas sobre os dados que minha retina captura, como o movimento dos corpos e sua extensão, bem como a dimensão dos lados de dentro e de fora de um espaço, é a imaginação que me permite articular esses dados e dizê-los como o resultado de minha observação em forma de palavras.

domingo, 16 de março de 2014

Do Real ao Imaginário - As Zonas de Indiscernibilidades

                                   
                      
    
                                                               INTRODUÇÃO

Penso nas coisas, não na perspectiva do sujeito da ação, mas a partir dos meios onde as coisas se insinuam. O mundo é cheio de coisas, de formas e texturas variáveis. Tudo o que contemplamos ao redor se anuncia como algo a espera de uma intervenção, caso contrário permaneceria caprichosamente como sempre esteve, aguardando por nós. Quando algo falta é porque da mesma maneira como ali estava, extinguiu-se por completo e na maioria das vezes sem que tivéssemos alguma responsabilidade sobre isto. Contudo, quando determinamos que o nosso agir se encarregou de fazer as coisas deixarem de existir ou que dele depende algo que está por vir, trazemos para a ação o peso que deveria estar em si nas coisas. A cada vez que o sol se põe dando fim ao dia, caso julguemos que nossa ação não foi suficiente o bastante para tudo que deveria ter sido feito, só nos resta aguardar outro dia, já que não está em nós o poder de atrasar o tempo. Somente há atraso na ação nunca no tempo ou nas coisas. Só atingimos as coisas no meio onde elas surgem, se desenvolvem e se extinguem. Assim os meios não forem suficientes para que façamos alguma coisa, nossa ação será sempre ineficaz. Por isso estamos sempre correndo atrás dos meios que viabilizam as ações ao invés de aguardar que as coisas aconteçam. Tornamos-nos especialistas em produzir os meios para atingir as coisas em detrimento da tendência que cada coisa carrega e pela qual se anuncia. 

“Penso, logo existo”.  Essa máxima traduz a ênfase que se confere a ação, uma vez que o ato de pensar passa a determinar toda a existência das coisas, a começar pelo sujeito da ação. Quer encontremos os meios em um espaço abstrato ou na matéria extensa que ocupa o espaço geometrizado pela abstração, toda ação sempre requer uma mediação onde as coisas passam a ser determinadas como seu produto.  Quando deixadas a si mesmas as coisas simplesmente são o resultado de uma tendência que as fazem ser de uma maneira e não de outra, a despeito de qualquer intervenção externa na qual nos tornamos especialistas, fabricando a partir das ações os meios onde coisas sempre deverão ser feitas. Diferente de uma semente que germina na terra, quanto cada tendência vem se insinuar frente à outra, operando-se uma mistura em um meio onde não se é capaz de determinar a ação de cada uma das coisas que se anunciam, os meios fabricados pelas ações humanas se afirmam pela finalidade que os determinam.  A intervenção humana no mundo sempre esteve ligada a uma finalidade da ação.  Ao se polir uma pedra e transforma-la em um meio que decepará um tronco, tal intervenção é guiada pela finalidade intrínseca à ação em si. A finalidade assim é capaz de reverter tendências originais, antecipar outras ou mesmo extingui-las.  Por isso dizemos que os fins determinam os meios. 

Pela ação os homens definem a finalidade que determinará os meios que serão capazes de livrar as coisas de suas tendências, evitando assim a imprevisibilidade que cada meio tende a produzir quando as coisas nele apenas se misturam. Se não somos capazes de determinar os meios aonde viemos existir – o país onde nascemos, a família onde crescemos e aprendemos os modos humanos, a cor da nossa pele ou a classe social onde fomos lançados no mundo, nos esforçamos ao máximo para fabricar meios que estejam aptos a produzir coisas determinadas por uma finalidade. Em geral confundem-se estas ações de se produzir meios através do qual se chega aos fins, com o estado de uma ação voluntária e livre que livraria os homens do determinismo da natureza das coisas, que são desta ou daquela forma simplesmente por tenderem a isto ou aquilo. Mas ao contrário do que se supõe a liberdade não deve estar relacionada aos fins que determinam os meios, mas sim aos meios em si mesmo, capazes de trazer à existência a multidão de coisas diferentes que se insinuam em cada tendência. Se os fins determinam os meio e as ações são assumidas como as causas de cada um dos meios fabricados, as coisas terminam sempre sujeitas a uma relação entre causas e finalidades. Nada me parece mais determinista que esta operação e o sentido desse esquema parece levar longe daquilo que se poderia supor por liberdade. Entre a semente, a terra onde ela germina e a árvore que passa a existir, é impossível se determinar qualquer causa ou finalidade, mas sim um simples encontro de tendências que se insinuam em um meio qualquer. 

Qual seria então a implicação de contrapor um mundo onde a ação determinada pelas finalidades sempre a produzir meios e  um mundo onde os meios carregam as tendências que se atualizam nas coisas, sem causas ou finalidades? De saída poderíamos apontar que o primeiro indicaria o mundo na perspectiva do homem a agir sobre ele em contraste com o mundo onde os meios acolhem as tendências que insinuam coisas, inclusive o próprio homem sempre a procurar o que fazer. Por mais que se faça parece que a ação sempre será insuficiente, uma vez que novos meios não param de ser fabricados pelo sujeito da ação.  Ao mesmo tempo ao se enfatizar os meios como espaços que acolhem as tendências de cada uma das coisas neles misturadas aponta-se apenas o modo com que cada coisa seleciona as tendências que a farão se constituir desta ou daquela forma, fazendo com que cada meio se afirme independentemente de qualquer causa ou finalidade. Se tomarmos um corpo qualquer como um organismo onde os órgãos se apresentam como meios direcionados para um finalidade específica, a exemplo do pulmão que captura o ar ou o coração que bombeia o sangue em função de uma finalidade traduzida na respiração ou na circulação, vemos que os meios em si já encontram-se determinados pelos fins do organismo. Diferentemente, caso tomemos os corpos como meios que acolhem tendências, o pulmão e o coração não mais se constituiriam como meios determinados pela respiração ou pela circulação mais como meios onde a multiplicidade de pequenas estruturas, a dos alvéolos, insinuam-se face a rede de pequenos capilares sanguíneos, como tendência de ambos para difundir moléculas de oxigênio e dióxido de carbono que permitem a troca de gases distintos.  Transfere-se, assim, a ênfase das causas e das finalidades para o meio onde se efetuam as tendências dos alvéolos, dos capilares sanguíneos e dos gases. A consequência é, portanto, a compreensão de que os meios diferirem entre si não por qualquer causa ou finalidade exterior, mas pela multiplicidade daquilo que neles são insinuados em um estado de contemplação.

Pode parecer estranho falarmos de contemplação nos referindo às coisas em geral, uma vez que nos habituamos a pensar que este estado seria um privilégio dos seres humanos e pelo significado passivo que conferimos ao ato de contemplar, como um olhar admirado ou embevecido que o sujeito da ação lança sobre a realidade que o cerca. Porém, se diferentemente dessa concepção entendermos o ato de contemplar como um estado de reflexão quando se leva em consideração alguma coisa que se insinua diante de si, veremos como se é possível imaginar os meios como um espaço de contemplação onde cada coisa se insinua diante de outra a partir da tendência que fazem se tornar aquilo que são, em um estado de reflexão que permite que cada coisa se misture a outra, sem causa ou finalidade mas apenas como um estado de suas próprias tendências que não param de se afirmar. Desta forma cada tendência não se confundiria com nenhuma finalidade, uma vez que cada finalidade compreenderia um conjunto de ações por elas determinadas. Já a tendência não seria mais nada do que aquilo que se insinua em cada coisa e que não para de se encontrar com outra, onde cada  encontro produz um processo de contemplação que reflete e considera aquilo que se insinua diante de si.  Poderia se dizer a partir daí que a semente contempla a terra que contempla os nutrientes do solo que contempla a agua da chuva que contempla os gases evaporados, e assim estaríamos diante de uma série de estados que não careceriam de causas ou finalidades. Contudo, se ao contrário dessa cadeia de coisas que se comunicam pela tendência por elas insinuadas, imaginamos um sentido de organismo, onde cada parte realizaria uma função determinada para o funcionamento de um todo, já nos colocaríamos, de saída, ao lado de um determinismo elaborado pela necessidade de se encontrar um nexo causal entre cada ação e o meio por ela produzido, orientado pela finalidade do organismo a serviço do qual se esteja no conjunto contemplado pelo sujeito que se habitou a pensar seus sentidos e significados como a finalidade que legitima todo o resto das coisas que o cercam.

Entre uma causa e um efeito existe o intervalo através do qual se vincula as coisas e se confere um nexo causal entre elas. Tal intervalo, no entanto, é uma produção artificial de uma faculdade dos sujeitos denominada memória. É através da memória que os instantes são recolhidos como reflexos parciais de cada coisa que se prolonga ao longo de uma série onde se é possível reconhecer a mesma coisa em momentos diferentes, a partir de uma identidade faz a coisa retornar diante do sujeito em cada meio onde esta aparece e a partir do qual se pode reconhecê-la. A memória, então, funciona como uma agente que permite ao sujeito fixar a identidade das coisas no intervalo entre um instante e outro. Através da identidade o sujeito pode esperar que a coisa retorne ao longo de toda a série de intervalos que se acumulam em sua memória. Espera-se o ônibus, o amigo a caminho de um encontro marcado, atendimento médico, o nascimento do sol, enfim, a espera se constitui como o tempo que que antecede um evento determinado antes que este se dê como acontecimento. Diríamos, então, que o acontecimento esperado existe como possibilidade que se desdobrará no acontecido quando este trouxer a coisa identificada a priori, ou deixará de se concretizar caso a coisa não apareça novamente diante do sujeito. Foi através desse mecanismo desenvolvido pelos sujeitos pensantes que se foi possível constituir um mundo de nexos causais entre as diversas coisas que coexistem com o pensamento que se tem sobre elas e foi, justamente, essa capacidade de pensar as coisas relacionando-as a partir da identidade constituída para cada uma delas que esse sujeito começou a agir como um ente separado de todas as outras coisas. Na experiência do sujeito que vai acumulando pela memória a repetição de cada coisa que retorna ao longo dos  instantes separados por um intervalo onde ele espera por sua nova aparição, constrói-se um centro onde as relações se processam e a partir do qual se é possível demarcar todo este caminho, centro este denominado consciência.

A consciência passa então a diferenciar o sujeito do pensamento das demais coisas, vivas ou não, animadas ou não. Cada coisa, inclusive o sujeito do pensamento, pode ser tida então como um ente na medida que cada ente possua uma identidade própria na consciência do sujeito que se encontra com elas. Todo o mundo, assim, passa a ser mediado pela consciência do sujeito que pensa e logo existe. Tentar subverter essa ordem só seria possível se possível fosse anular a consciência do sujeito que pensa, de forma que a existência fosse tomada a priori em relação ao pensamento. Aqui retornamos a contemplação como o estado que permitiria a subversão da ordem do mundo habitado pelo sujeito do pensamento. Mas como, uma vez que cada coisa só existe para os entes que dela tem consciência? Supor que a consciência pudesse ser anulada implicaria fazer o sujeito retornar para o estado das demais coisas que coexistem sem que entre elas pudesse se obter nenhum nexo de identidade. A cada piscar de olhos o sujeito teria diante de si um mundo diferente, pois cada instante não seria mais mediado pelo intervalo construído pela memória que recolhe as coisas em cada uma de suas aparições e as identifica em cada uma das séries. Morreria assim o ente que nasceu quando a consciência o separou dos demais entes, apagando-se a memória que recolheu os instantes dessa existência, esquecimento que extinguiria essa espécie de ente que se autodenominou, em algum instante, humano e que organizou todo o mundo ao redor de si a partir das finalidades que direcionaram os sujeitos os transformou em sujeitos da ação, ao longo da série de intervalos ligados pela memória e transformado por ela no tempo de sua história.

Os entes sem história são os entes sem memória, ou com uma memória incapaz de fixar a trajetória das coisas ao longo da série de instantes que constituem o tempo histórico. Daí ser importante distinguir a memória que constitui a consciência e formula a história de uma mera faculdade de arquivar imagens e sensações apreendidas pelos sentidos ou pela percepção sensível. Caberia de saída uma pergunta sobre a faculdade que permite que todas as coisas além do sujeito, ou que todos os entes além dos homens, retenham qualquer impressão resultante do seu encontro com uma outra coisa qualquer. Se começarmos pelas coisas inanimadas há de se admitir, no mínimo, que o seu encontro com qualquer outro ente produz um estado que difere do estado que antecedeu a esse encontro. A erosão de um terreno através do contato com a água é um exemplo entre os minerais sobre a permanência de uma impressão sobre os minerais que constituem um solo qualquer do encontro com a água da chuva. Nesse sentido poderíamos dizer que o terreno carrega a memória da chuva em seu estado de erosão. Caso avancemos aos entes vivos, quer tratemos de vegetais ou animais, essa memória fica mais evidente a partir da capacidade que estes tem de multiplicar vida a partir do encontro com outros entes. Ainda que possamos por analogia tentar conferir a eles um grau de proximidade com os encontros na realidade do sujeito da ação, será em vão, pois tal aproximação está carregada de um antropomorfismo que baliza e induz toda e qualquer análise. Daí o máximo que conseguiríamos seria utilizar os significados produzidos ao longo da história que constituiu este ente e o colocou separado dos demais, justamente por sua capacidade de refletir sobre o mundo e sobre si mesmo. Porém a todo tempo ficamos tentados a adotar a mesma lógica que constrói os sentidos da existência humana, produto da história desse ente que carrega a impressão dos encontros que se dão ao redor de si e não para de produzir significados para eles.


Uma primeira diferença importante de ser ressaltada, entre o resultado do encontro  dos demais entes não humanos e os encontros que envolvem entes humanos entre si ou com as demais coisas, é a espera por alguma imagem ou sensação que permita o sujeito da ação reconhecê-la no conjunto arquivado em sua memória, numa história que transforma os estes de memória em sujeitos da ação. A memória humana é a faculdade que permite o sujeito se apropriar do tempo como instantes reunidos e interligados a partir do nexo conferido aos movimentos fortuitos da realidade em um sentido de ação e reação, causa e efeito, onde os encontros não revelam apenas as tendências insinuadas em cada coisa mais o significado a priori que forja uma finalidade qualquer. Consciente de si e do mundo ao seu redor, o sujeito significa o mundo a partir da sua capacidade de  produzir e organizar o tempo de sua ação de visar a realidade que o cerca. Dos encontros como o mundo o homem absorve as sensações impressas e as media através de sua capacidade de reproduzi-las silenciosamente sem que necessariamente precise reencontra-las na realidade. Isso porque as imagens se formam em um meio produzido pela ação do sujeito, espaço onde ele significa as coisas. Diríamos que tais encontros, portanto, são mediados pela atividade de retenção das imagens e da antecipação dos instantes dos novos encontros. O intervalo ao longo do qual o sujeito já carrega a impressão das imagens de sua percepção o permitirá antecipar os instantes seguintes onde a coisas não param de se manifestar. Numa repetição produzida pelas linhas de semelhança traçadas abstratamente pelo pensamento,  o sujeito confere uma identidade àquilo que aparece diante dos seus sentidos. A ação do sujeito, deste modo, passa a ser orientada pela finalidade de produzir significados a partir dos meios onde se dão os encontros entre o sujeito, sua realidade e a realidade do mundo a sua volta.

A partir dos significados o sujeito é capaz de descrever seus encontros no mundo. Toda descrição revela a linguagem como outro elemento que se une a tríade percepção, memória e abstração, compondo o meio onde irá surgir a consciência que o sujeito tem de si e do resto da realidade. Toda linguagem, quer construa uma descrição como produto que ressalte os eventos onde as coisas aparecem diante do sujeito, ou incorpore os eventos às vivências de um Eu individual, vem situar a consciência num determinado espaço de significação. Nele o ato linguístico se assemelha a ação dos corpos, em uma dinâmica recíproca que se estende nos meios produzidos pelo sujeito. Eis o palco onde o sujeito não para de produzir significados para si mesmo e para as coisas com as quais se depara. Fora dele não há sujeito, mundo ou qualquer outra realidade para a consciência. Se o sujeito é capaz de perceber e dizer o mundo ao redor de si isso se dá pela ação das faculdades que organizam aquilo que é percebido em uma ordem interna, retendo cada uma dessas imagens através da memória. Cada vez que se volta novamente para o mundo, o sujeito já carrega consigo as imagens que o permitirá antecipar aquilo que tem diante de si, nominando sucessivamente cada percepção e distribuindo as sucessões em uma sequência temporal. A medida que vai constituindo sua interioridade o sujeito inaugura simultaneamente a separação entre as imagens internas e o mundo diante de si, organizando as mesmas percepções em uma ordem exterior e coextensiva. Pense num mundo sem memória, sem tempo; considere a possibilidade de uma linguagem que ignorasse os substantivos, uma linguagem de verbos impessoais ou de epítetos indeclináveis. Assim se faz morrer os dias e com os dias os anos. Mas alguma poderá acontecer. Poderá chover como poderosa lentidão.


Voltemos as coisa e aos meios onde elas insinuam tendências que imprimem sua presença uma sobre as outras gerando uma memória sem lembranças, uma vez que a contemplação reivindica a duração como uma fruição onde o esquecimento vem a ser o elemento fundamental de cada acontecimento. Se no caso do sujeito da ação a memória é a faculdade que permite a mimetizacão da realidade a partir do registro das percepções que constituem a  sua consciência, no que se refere aos encontro entre as coisas inconscientes a memória funciona como o momento, sempre de forma temporária e impermanente, como duração ou o meio onde as tendências não param de se insinuar silenciosamente. Se os sujeitos produzem os meios de onde significam as percepções do mundo, rede de significados a produzir identidades que os possibilitam dizer a realidade, os meios onde surgem as coisas é um espaço de aparição e desvanecimento longe da consciência que produz os signos da linguagem. Em cada manifestação as coisas emitem signos impronunciáveis que só podem ser lidos e ditos na perspectiva do sujeito que os recobre com seus próprios significados. Fora desse espaço de significação as coisas aparecem, somem e levam consigo em cada encontro uma memória sem registros que dura na exata dimensão da tendência de uma imprevisível novidade. Dizer cada coisa na sua própria perspectiva requer do sujeito que fala a suspensão dos significados da consciência a fim de viabilizar o encontro com as tendências subjacentes às coisas no silêncio de encontros impronunciáveis nos termos do espaço de significação de sua humanidade. Zona onde não se é capaz de discernir  os signos caso se silencie o conjunto de significados que constituem as identidades da consciência e onde cada tendência é uma intensidade sempre diferente, sem registro na memória subjetiva, sem história, partida ou chegada. Trata-se, então, de se promover um embate entre o dito e o que não pode ser dito, palavra e silêncio, consciência e tendência, abrindo-se espaçamentos na linguagem que possam liberar a memória de suas lembranças ou dos seus dispositivos significantes, tomando-a como fruição impermanente onde as tendências não param de se insinuar e de liberar novas intensidades.

Pensar as coisas fora da perspectiva do sujeito da ação requer primeiro um mergulho na realidade desse sujeito e de seus mecanismos, através da exploração de seus espaços de significação. Se pretendemos fazer silenciar as palavras que significam as coisas e partir em busca das tendências que elas insinuam como meio de sua aparição e desvanecimento, temos que reorientar as faculdades responsáveis por situar e sustentar a consciência desse sujeito. Havemos de penetrar na percepção sensível, nos registros da memória, nos labirinto da abstração e na rede de significados da linguagem, como Orfeu penetrou no Hades em busca de Eurídice ou como Teseu o fez no labirinto da grande fera. Porém, após penetrarmos nesse espaço, o próximo passo é evitar cumprir os acordos constituídos antes dessa descida o que não garante o retorno para o “mundo dos vivos”, uma vez que sem os suportes dos pactos da consciência transformamos o espaço em um lugar movediço onde não se pode lançar mão dos “fios” de Ariadne ou das “luzes” dos registros que constituem a base da subjetividade do Eu e onde repousa o sujeito que percebe, lembra e fala.  Seria como que um exercício de “esquecimento” que lança o sujeito longe de sua identidade e dos significados que o permite dizer a si e ao mundo, no silêncio da palavra impronunciável que produz apenas murmúrios. A fala organizada na estrutura significante da língua deve ceder espaço aos ruídos de um marulhar sempre ao fundo, como no canto das sereias que arrastam os navegantes para o fundo de um oceano de trevas. Porém diferentemente de Ulisses não devemos estar amarrados ao mastro do navio, mas sim à deriva das vozes que não param de balbuciar um canto que só se ouve no silêncio entre os batimentos do coração do sujeito. Se as palavras são signos com os quais o sujeito representa o mundo sobre o qual tem consciência, parece impossível utilizar esses signos sem que estes já apontem os significados arquivados na memória e que vêm a tona a cada olhar que o sujeito lança sobre a realidade. Se ao dizer a realidade na qual se encontra imersa a consciência já carrega os significados da língua, teríamos que buscar palavras não vinculadas as formas conscientes de linguagem, onde os signos estivessem esvaziados dos seus sentidos originais, na brancura onde se rompe  as relações entre significantes e significados. Brancura que faz parte do esquecimento; que se afasta da consciência,  vem se localizar longe da abstração e onde os signos não mais evocariam lembranças que afirmassem um Eu determinado. 

Caso fosse viável se penetrar nesse espaço, zona do indeterminável onde tudo se faz e se desfaz sem que as aparições e os desvanecimentos deixem qualquer registro, a instantaneidade dos encontros estaria sempre a dissolver os limites entre o visto e o dito, onde se formam os significados que orientam a visão e a língua. Os signos aí não mais estariam encobertos de registros da memória evocados por semelhança ou equivalência em cada uma de suas aparições; seriam signos puros uma vez que emitiriam sempre uma novidade que não se pode antecipar, definir ou corresponder, pois mudariam a cada encontro, tornando-se impronunciáveis a partir do conjunto de registros prévios. Como no meio onde as coisas inconscientes se encontram e se insinuam, se fazem e desfazem silenciosamente em uma memória que é a duração pura de suas tendências; sem passado, presente ou futuro, mas como intensidade sempre a produzir o novo. O falar nesse meio só se tornaria possível caso as palavras fossem transmutadas em intensidades em cada uma de suas aparições, sem evocar significados, mas compondo uma fala que levasse o sujeito para longe dos espaços de significação onde se encontram as identidades recolhidas nos registros de sua memória.  Meio “natural”, onde os encontros de tendências intempestivas produzem agitações; tendências que se insinuam e que antes de poderem ser designadas sem transmutam em uma novidade.  Expressar essas tendência e seus meios requer uma fala que se afirme pela combinação de palavras esvaziadas do significados registrados através da memória, palavras que apareçam como signos puros preenchidos pela intensidade das agitações. Chamemos os meios naturais de campos intensivos, onde os signos não designam ou representam, mas insinuam intensidades de tendências.

As tendências não ocupam os espaços de significação produzidos pelas faculdades responsáveis por construir a subjetividade dos entes humanos, nos termos das operações de sua percepção sensível, memória, abstração e linguagem. Elas seriam como vibrações de um campo intensivo, impossíveis de serem diferenciadas a partir de um processo de comparação que explicite suas semelhanças ou contradições a partir de qualquer identidade. Sem traços comuns ou oposições sobra apenas uma diferença que é uma manifestação intempestiva e instantânea que se dissolve em sua obscuridade antes que dela se possa ter qualquer clareza. Se as imagens da consciência são claras e distintas,  permitindo assim sua representação por signos que designam  significados inequívocos, as tendências insinuam ideias distintas mas obscuras. Distintas a medida que sempre diferentes e obscuras por não carregarem identidades que possam ser recordadas ou designadas. Assim, a palavra que pretenda se deixar preencher pela intensidade dos meios naturais deve ser capaz de se libertar das teias da subjetividade que permite a aparição de um Eu que percebe, registra, recorda e designa. Ao invés de surgir como um significante, ela deve brotar também como uma agitação do meio onde se encontra com as demais coisas, antes que se possa fixar sua identidade.  Vejamos como isso funciona na realidade.

Se a cada manhã a agitação luminosa, ao se encontrar com os corpos opacos, produzem imagens que irão se formar na retina, após um piscar de olhos, é no processo coordenado pela memória que essa imagem se torna capaz de ser reconhecida através das características comuns que se reproduzem no instante seguinte. Separadas por instantes sucessivos produzidos pela memória elas se separam uma das outras a medida que vem ocupar um lugar no quadro produzido pelo observador. Cada quadro que o sujeito tem diante de si é um fotograma animado pela memória, que é capaz de recuperar o fotograma anterior e reproduzi-lo no instante seguinte onde o sujeito pode verificar as semelhanças e diferenças entre as imagens do quadro. Olhando para o lado de fora do interior da livraria onde agora escrevo, tem-se a visão de um escadaria que no seu cume se abre ao exterior. Não se vê portas ou janelas mas apenas uma grossa coluna que não se sabe estar de que lado. Vez por outra alguns transeuntes se desviam do trajeto transversal por onde se movem, passam ao lado da coluna e começam a descer os degraus. Só nesse instante se poder ter certeza de estarem no interior que se desdobra até o sofá de onde tudo observo.

A sensação da dúvida que permanece separada pela coluna lá no alto só é interrompida pela visão dos pés outrora escondidos e que só se dão a ver no primeiro degrau escada abaixo. A tal coluna se sobressai pela constatação de que para além dela avista-se menos das pernas, quanto mais estas são lançadas na direção oposta da escada, o que acaba sendo definitivo para dimensionar os lados, já que daqui não se enxerga o chão da rua ou o assoalho do lado de dentro. A medida que as pernas avançam para cá da coluna vão ficando mais a mostra, até que no limiar do primeiro degrau do lado de cima revelam os pés que sustentam seus movimentos. Quanto menos pernas se pode ver, supõe-se mas distantes do lado de dentro os corpos. Alguns deles só exibem da cintura para cima e no limite oposto do  lado de fora percebe-se somente cabeças em movimento  de mão dupla. Quando uma das cabeças ambulantes, repentinamente, mudam sua trajetória, pouco a pouco se pode notar corpos surgindo debaixo delas, revelando pernas que após cruzar a coluna iniciam a descida do primeiro degrau, finalmente fazendo aparecer os pés que os levarão para o interior onde estou a observa-los. 

Por um mero acidente, após trocar meu assento no subsolo por outro em uma mesa localizada dois andares acima, ponho-me diante de um vidro disposto diante da porta de entrada. As mesas que ocupam toda a extensão de sua lateral torna-o opaco, o suficiente para refletir imagens como um espelho. Só aí pude ver a calçada do lado de fora por onde se movia tudo do lado de lá da pilastra. Curiosamente reparo que a perspectiva se invertera. Agora, quanto mais distante da pilastra para o lado de fora, os corpos vão surgindo abaixo das cabeças até aparecerem por completo em um ponto qualquer na metade da calçada e começar a sumir aos pouco, sobrando apenas as pernas do joelho para baixo ao avançarem até o exato extremo onde antes apenas se viam cabeças em movimento.  No limite do lado de fora refletido pelo vidro, a dança das cabeças dava lugar a de pedaços de pernas com pés. A pilastra continuava compondo minha visão, só que agora já se sabia que estava do lado de dentro. Como a escadaria sumira da cena, a pilastra passava a limitar o ponto onde as cabeças sumiam depois de cruza-las interior adentro. 

Passo a observar os dois extremos e o ponto onde as imagens se flexionam. Do lado de lá, os pés que carregam apenas pernas do joelhos para baixo,  começam a dar sinais do resto do corpo imediatamente após mudarem de direção. Ao se moverem em diagonal cruzavam o ponto na metade da calçada onde se era possível ter a visão dos corpos completos, até que no caminho em direção da pilastra iam se reduzindo novamente à cabeças solitárias que desapareciam por completo do lado de dentro da livraria. Como o olhar que a tudo fitava vinha do mesmo sujeito, todo o resto estava dependente do ponto de vista desse sujeito em relação aos demais elementos que participavam do quadro, exceto quando um outro anteparo gerava reflexos que mediava as imagens além dos corpos opacos, cujas imagens eram impressas na retina de quem os observava. Imagens mediadas por anteparos fora do sujeito; cópia de cópias; simulacros que alteram a visão. É a partir desses simulacros que se introduz no processo a equivocidade e a indeterminação do que se é capturado pela percepção sensível, quer em forma de imagens, sons,  ou texturas. Cópias produzidas para além dos anteparos do sujeito, capazes de interagir como o esquema de reprodução das sensações e da fixação de identidades pela memória, como que num jogo de espelho onde se é possível liberar um elemento da memória que será fundamental para aquilo que nos propomos aqui. A saber: a imaginação.

O meio natural é o palco onde misturam-se, animais, vegetais, microrganismos, partículas e toda uma galáxia a insinuar tendências; “apetite” e “esforço” pelo qual cada coisa persevera no seu ser, insiste e subsiste, e onde cada uma dessas coisas não para de emitir signos que são sintetizados pelo sujeito através de sua percepção sensível,  memória e abstração, traduzidos em significados e  ditos pela linguagem como força da imaginação. Podemos aprofundar esses processos operados pelas faculdades do sujeito, dividindo tais sínteses em sínteses passivas e  ativas, referindo às faculdades passivas a sensação e às ativas a memória.  A partir daí subdividimos a memória em centro produtor de duas séries também distintas, uma na ordem da razão e outra da imaginação. É através da reorientação da memória como uma faculdade ativa que os sujeitos humanos se distinguem das demais coisas, para as quais a memória é o conjunto das intervenções que constituem sua existência. Quando tomamos a memória como um centro produtor da razão,  nos referimos a capacidade de reunir registros que permitirá o sujeito abstrair o mundo e através da razão representa-lo de forma a estabelecer as medidas através das quais  poderá agir, produzindo os meios onde passa a ser mover à luz das necessidades geradas por cada uma das finalidades específicas. Já no que se refere a ordem da imaginação, a memória se coloca como um centro de registro de imagens produzidas pelas associações dos signos emitidos pelas coisas com os signos produzidos pelo sujeito que significa o mundo ao redor de si pela linguagem. O sujeito pode, assim, ultrapassar os dados, através das associações da memória que os organizam como um sistema articulado, impondo a essas articulações, pela imaginação,  uma constância que elas não tem por si mesmo.  Se é pela razão que me oriento no sentido de produzir medidas sobre os dados que minha retina captura, como o movimento dos corpos e sua extensão, bem como a dimensão dos lados de dentro e de fora de um espaço, é a imaginação que me permite articular esses dados e dizê-los como o resultado de minha observação em forma de uma linguagem.

Sentado em um cadeira do trigésimo andar, vê-se uma via por onde transitam automóveis, cada um em sua faixa. Eles descem na mesma direção e lado a lado, até sumirem por traz do muro que limita a varanda onde encontra-se o observador. Eles surgem na curva e seguem até sumirem de novo em uma zona de indeterminação para a visão. Aparecem e somem na inflexão do ponto de vista. O sítio de visão é o espaço entre o seu aparecimento e esvanecimento e fora daí existe uma zona de indiscernibilidade que se abre a imaginação e longe do olho que fita a rua. Zona fora do tempo e do espaço do movimento. No sítio da visão se é capaz de determinar as propriedades dos móveis (tamanho, cor, forma), e marcar o tempo a partir do seu deslocamento. Antes e depois do instante em que surgem e desaparecem sobra apenas a imaginação de quem observa esse quadro. Para se conseguir resgatar esta aparição aos sentidos há de se remover os obstáculos que definem o limite do sítio onde aparecem passam a existir, para reencontra-los a partir das propriedades que ficaram arquivadas na memória do observador. Acontece que, no fim da via que se prolonga escondida, existe um desvio de mão dupla, onde o automóvel poderá se perder para sempre e qualquer outro com as mesmas propriedades, surgir de repente a adentrar pela via, antes que o observador contorne o muro que limita sua visão e consiga enxergar novamente a rua por onde os automóveis seguem. O resultado da retomada da visão dessa trajetória poderá se bifurcar, dependendo do acontecimento em relação ao objeto perseguido pelo observador ou pela precisão da faculdade do sujeito que o fita. Se o automóvel dobrar no desvio ele poderá desaparecer para sempre. Se, simultaneamente, um outro semelhante surgir, ele poderá “iludir” o sujeito a partir da sua semelhança com o da aparição originária. Assim a continuidade entre os dois instantes dependerá, no mínimo: da repetição das mesmas propriedades em um espaço contíguo e da capacidade do observador reconhecer estas propriedades no tempo.

Vamos supor que algo insólito acontecesse entre o instante que o observador se põe de pé e se estique por sobre o muro de sua varanda. Imaginemos que, de repente, o sol se pusesse instantaneamente e uma escuridão total se impusesse ao quadro observado, de forma que o sujeito não fosse mais capaz de enxergar a via ou qualquer outra coisa sequer. Extinguir-se-ia, assim, qualquer possibilidade de recognição que permitisse desdobrar o instante imediatamente anterior, uma vez que seria impossível reconhecer as personagens que compunham o quadro formado no seu sítio de visão original, sendo impossível definir a trajetória dos automóveis na via uma vez que a própria via desapareceria por completo do  ponto de vista. Imaginando que o observador tivesse a capacidade de reproduzir a exatidão das formas do quadro em seu espírito, talvez ele fosse capaz de reconstruir a trajetória, por alguns instantes, mesmo sob trevas absolutas, de forma mais ou menos precisa, ao ponto de reencontrar, instantaneamente, os automóveis em um ponto qualquer da via, quando o sol voltasse a brilhar, reconstruindo, por completo o ponto de vista prolongado fora da sua visão até que uma nova inflexão trouxe-se de volta todos as personagens a cena.


Se o ponto de vista se abre como inflexão para o espaço de significação construído a partir da tríade sensibilidade, memória e abstração, podemos supor uma nova inflexão se faça presente ao olhar e transforme o sítio de visão do sujeito em um espaço de esvanecimento a se afastar cada vez mais dos limites circunscrito de uma visão que habituou-se a reivindicar a aparição nos limites do tempo e do espaço. Embora a sensação, a memória e a abstração prevaleçam como as faculdades que processam as sínteses de um “Eu” que começa a contrair o mundo que se abre ao sujeito é no esvanecimento do ponto de vista que a imaginação irá encontrar o plano onde os acontecimentos recuperam toda a potência que se afasta do olhar para um horizonte cada vez mais distante.  Ainda que seja cedo para colocar o problema central que será desenvolvido aqui, poderíamos antecipar que o tema que nos acompanhará ao longo das sentenças arrumadas nas páginas a seguir será o  da aventura de uma imaginação a reivindicar a soberania sobre as demais faculdades que constituem o sujeito que se mistura com o mundo ao redor de si que se insinua por todos os lados. Se nos encontros que se seguiram ao longo da aventura da civilização humana o “Eu” que sintetiza o universo ao seu redor produziu resultantes que se ligaram a uma finalidade original, cada uma a serviço de um fim específico, a questão aqui será rastrear cada um desses trabalhos do “Eu” e verificar a possibilidade de livra-lo das tarefas que o afasta da aventura de imaginar mundos em profusão sem limites, que não se sujeitem as formas através das quais ele produz o espaço em que se movimenta à serviço das imagens impressas em sua consciência  pela regularidade de sua repetição.

Se continuarmos a observar do ponto de vista do sujeito que fita de sua varanda, veremos que a via se inicia na curva por onde surgem os automóveis que somem atrás do muro como seu limite final.  A curva como a origem do trafegar carrega  surpresas a cada novo veículo que surge a partir dela. Para que se possa saber mais do que se passa nesse intervalo que se abre a visão há de se deslocar até a via e começar o trajeto no sentido contrário, caminhando ao longo dela até o ponto de origem de toda a aparição. Porém ao se descer até o nível da rua, as sínteses da visão começam a produzir um novo quadro uma vez que o ponto de vista passa a se compor de novas inflexões que pouco-a-pouco vão capturando novas tendências antes ocultas a ela. As novas personagens desviam a atenção outrora concentrada no balé dos automóveis a correr pela via e o “Eu” se abre a novas insinuações antes distantes e imperceptíveis ao ponto de vista. Ao continuar trafegado na via, por entre os prédios que margeiam a avenida pode-se vislumbrar o seu início  que vinha trazer os automóveis antes da curva e se foi capaz de seguir sua trajetória por todos os instantes sem que eles sumissem de vista. Não há mas o que se imaginar pois a percepção passa a ser alimentada por completo e a imaginação não é mais solicitada para auxiliar o “Eu” a construir a trajetória pois ela está completa diante do sujeito que a observa e a apreende, salvo se sua atenção se desvie para qualquer outro lado que não a trajetória em si. Não há mais espaço para a imaginação e ela permanece ociosa cedendo lugar a passividade da percepção sensível até que algo venha a perturbar sua concentração, que é o que fatalmente acontecerá uma vez que a novidade das novas sensações ao logo da via não demoram para atrair a atenção do sujeito que avança sobre ela no sentido contrário dos automóveis que já não despertam mais sua curiosidade.

Todo  conhecimento acerca da realidade dos fenômenos que nos cercam só se da a partir das sensações que tornam essa realidade disponível aos sentidos do sujeito que a captura. Qualquer consideração para além da realidade sensível prescinde de uma mediação capaz de descortinar essa realidade e a torna-la apta a existir. A realidade do mundo não existe se não em um campo através do qual se é capaz de acessa-la. Neste campo as amostras sensíveis se apresentam em diferentes formas e o conteúdo dessas amostras diferem muito mais em relação a como são capturadas do que por como cada um se insinua na medida de sua aparição. Ates de descer até a via que nos leva a curva de onde os automóveis surgem, a visão que tínhamos em relação ao quadro diante do olhar se limitava pelos diversos elementos postados no espaço. Somente nos movendo ao longo da via fomos capazes de ultrapassar esses limites e ver surgir novos conteúdos a desfilar diante dos nossos olhos. Ao voltamos para a varanda de onde mirávamos originalmente a via por onde desciam os automóveis, carregamos conosco as novas sensações com as quais nos deparamos em nossa descida. O espaço encoberto de nossa visão se revelara e fomos capazes de perceber que sob a via corria um braço de rio que desaguava seus conteúdos do outro lado. O fato de não conseguirmos enxerga-lo não despertara a atenção para os elementos que estavam a se mover ao longo das aguas da pequena marina ao lado da via. Isso porque eles se moviam numa velocidade inferior a dos automóveis e por isso ao olharmos o quadro diante de nós nossa atenção era atraída pelo movimento dos carros e não dos barcos. Os barcos eram como imagens imóveis do quadro ao lado do concreto da marina e das árvores plantadas em seu solo, a despeito de também estarem em movimento.

E o que são imagens? Poderíamos afirmar que uma imagem é um conteúdo coberto de visibilidades por todas as dimensões por ela ocupada, ou melhor, uma frequência emissora de visibilidades. Frequências atravessam os órgão dos sentidos num caminho que vem deita-las nos suportes da percepção. Do mesmo modo, qualquer outra frequência não visível nas dimensões do espaço, ao encontrar os sentidos, também reivindicam um lugar e nele exercem sua potência, liberando intensidades que ao se insinuar se dão a capturar pelas relações  das formas da percepção de um sujeito que “contrai” o mundo ao redor de si, e devolve imagens, sons e texturas através dos suportes e anteparos onde os conteúdos são registrados: e a luz refletida nos corpos opacos é sintetizada na retina, as ondas sonoras que se espalham no ar encontra o tímpano que se interpõe em seu caminho, assim como o sopro do vento encontra na pele o suporte do corpo ao arrepio. O sujeitos e suas frequências, que são as vibrações de forças relacionadas em seu organismo, estão cercados por vibrações por todas as dimensões do espaço em que se movem. Depois de capturadas pelos órgãos da percepção elas passam a ser registradas em um acervo que vai acumulando um sem número de encontros, de forma que ao se reivindicar a presença de um desses encontros a sensação é capaz de se ser reproduzida e estendida em desdobramentos da síntese original. A partir da lembrança da sensação original o sujeito é capaz de reproduzir silenciosamente os conteúdos sensíveis através de códigos abstraídos que ao serem lidos, ditos ou transmitidos de volta ao palco onde as frequências não param de vibrar vem se juntar a elas como expressões do sujeito.

O mundo assim, é um palco de encontros. Encontros  de frequências que vibram cada uma delas em um determinado ritmo. O pulsar dessas frequências  se encontram e  formam tudo o que existe. Frequências do sujeito que percebe e frequências de fora desse sujeito que sintetiza e traz a existência os conteúdos. Cada conteúdo só passa a existir para o “Eu” que contrai as formas do mundo quando estas se encontram com os conteúdos do sujeito. Ao serem expressas através dos códigos do sujeito que as percebe e as abstrai elas passam a compor a realidade do “Eu “que reconhece o mundo a sua volta. Se o “Eu” contrai a realidade do mundo, para que essa realidade possa ser apreendida pelo sujeito que percebe, organizada pelo sujeito que a recupera pela memória, abstraída pelos sujeito que a reflete, e dita pelo sujeito que a representa pela linguagem, há de se apelar para o centro onde tudo se processa e que chamamos de consciência. Sem a consciência, as tendências que se insinuam ao redor do sujeito o atravessariam sem que nada pudesse ser retido. É nesse centro que os encontro entre as frequências dos sujeitos e as frequências de fora dos sujeitos são codificados para que se constitua  o sentido de cada espaço onde esse sujeito significa a sua realidade. A falta de tais códigos inviabiliza o acordo que permite os sujeitos trafegar com precisão nas vias da realidade. Sem eles o que o sujeito teria diante de si seria uma multidão de sentidos indeterminados. Essa indeterminação pode funcionar de duas formas. Ela pode gerar o desconforto pela ruptura do centro de significação do sujeito ou pode ser capaz de liberar um potencial disruptivo que liberta a subjetividade da servidão da identidade. Nos debrucemos no palco onde foi constituída a subjetividade desse ente dito, por si mesmo humano, nas expressões surgidas desses encontros e no rastro deixado pelo sujeito na realidade do mundo que não para de se insinuar a sua volta.


O mundo dos homens é um palco de encontros que revelam personagens diversos. Desvelemos esses personagens em cada uma de suas aparições e tentemos seguir as dramatizações que dão formas e sentidos a cada uma deles. Encontremos significações que possam reverberar no espaço da indeterminação dessa ordem que insiste em emergir nesse início de século. Ordem onde o multiplicar de imagens, vozes e tendências vem criando uma zona de indistinção e de indiscernibilidade, liberando as formas de expressões do sujeito  de um olhar, de um fala e de uma ação caduca. Expressões  atreladas as formas que foram constituídas no embate de civilizações da linguagem e que tem se mostrado inócua na captura dos novos conteúdos. Conteúdos carregados de uma diferença excedente a liberar forças livres na exata dimensão do multiplicar dos espaços de onde se vê, fala e se age, achando um expressão  que libere as tendências que circulam neste rizoma que se tornou a sociedade sobremoderna. Transferir a ênfase dos significados estruturados nos espaços subjetivados para as frequências das imagens e dos sons que sobem das várias vibrações, cria uma zona onde não se é mas capaz de lançar mão dos significantes atrelados a linguagem formal constituída a partir das faculdades a serviço da razão ordenadora e que inventou os sentidos nesse mundo de homens particulares, renovados através dos tempos Se falarmos de uma civilização sobremoderna, já estamos intrinsecamente a discorrer sobre aquilo que esta no “sobre” como  fundamento do seu excesso. Excesso de modernidade e aqui em relação aos fundamentos que marcaram a civilização tida historicamente como moderna.