sábado, 17 de setembro de 2011

A Fala, o Falante e os Conteúdos Falados - uma Dança Meta-Estável


 

"É preciso um desvio da fala. Criar foi sempre coisa distinta de comunicar. O importante talvez venha a ser criar vacúolos de não-comunicação, interruptores, para escapar ao controle" (Gilles Deleuze).

 

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Dizer algo que se abre a percepção mantendo o campo da fala como um campo onde se relacionam as diferenças, é seguir essas diferenças através de um discurso nômade, através dos desvios, dos saltos e do jorro imprevisível de novidade. Como então poderemos dizer tais diferenças através de uma linguagem que é o fundamento de uma abstração que organiza o mundo através do esquadrinhamento de um espaço fechado, onde os significantes invequívocos reproduzem as regularidades como forma de controle absoluto e, portanto, como determinação exata e sem hesitação do poder da ordem. Precisaríamos, de saída, afirmar a errância de um mundo múltiplo e semovente, pelo qual intensidades sempre heterogêneas, sempre diferentes entre si, se conectam e se desconectam permanentemente. Esse mundo jamais poderia ser encerrado em um recinto de um sistema fechado, uma vez que ele é o lugar da desordem, do imprevisível, do incerto e do informe. Chegar aos vacúolos de solidão e de silêncio, ali onde algo mereceria ser dito, seria, então, atingir o lugar enigmático onde estes acontecimentos se passam; onde alguma coisa passa entre os bordos; estouram acontecimentos e fulguram fenômenos. Mundo da multiplicidade de elementos, sem designação nem significação, mas que se apontam e se determinam reciprocamente a partir de relações diferenciais que pertencem ao campo do virtual. Contrariamente e de forma ordinária, a linguagem ordenadora dos significados fixos pertence ao campo da atualidade. A "atualização, diferenciação ou gênese converte as relações diferenciais em espécies  distintas e as singularidades nas partes e figuras extensas relativas a cada espécie. A diferenciação é especificação e organização, é qualificação e composição, é qualitativa e quantitativa. Ela desdobra as virtualidades em seus produtos empíricos, mas sem jamais esgotá-las, mesmo porque elas perduram segundo as linhas divergentes atuais" (Gilles Deleuze). Neste ponto há de se invocar um termo, que seria responsável pela passagem entre essas duas dimensões, como "campo que põe em relação as multiplicidades virtuais e as forças do fora, o que, por sua vez, vai desatar o processo de atualização"(Gilles Deleuze). Deleuze o chama de "percursor sombrio". Um intensidade individuante que age como um misterioso portal que garante o mundo em sua discordância, marcha da criação e da novidade. Um elemento de sustentação das ressonâncias entre potências em suas diferenças absolutas, que como partículas em movimento num vazio, seguem em sua infinita marcha sem se tocarem, até que uma inclinação mínima as combinam e as fazem aparecer como um raio que fulgura as formas do mundo.

Essa inclinação de passagem, não figura no espaço da extensão e no tempo da sucessão dos instantes, pois esses já dizem respeito ao mundo apreendido pelos sentidos, que por sua vez habita a mesma dimensão. Não pode ser abstraído, pois o movimento de abstração esquadrinha a realidade a partir da um recorte que se apóia nos limites da reprodução de uma identidade que faz com que as formas se encaixem nas linhas através de pontos determinados no espaço. Se partirmos de uma perspectiva que nos coloque frente a frente com o abismo referencial da falta de suportes para apreendermos o mundo que nos chega pela percepção sensivel, temos que aprovisionar um sentido provisorio que nos permita referir as coisas a partir de uma abertura que nos remeta, continuamente, a transitoridade dos elementos que surgem diante dos sentidos e desaparecem imediatamente após, sem que se possa fixar um significado. Como, porem, dizer esse mundo, quando o que fica são apenas intensidades que nos tocam como raios que desaparecem logo apos manifestar seu brilho. A solução, talvez, pareça estar ligada muito mais ao ato de dizer as coisas e o mundo, uma vez que ao utilizar os signos para designar os objetos que se abrem a percepção criamos, imediatamente, uma relação identitária que nos rouba a riqueza da multiplicidade que está diante de nós nesse encontro. Daí, a necessidade de um desvio na fala, para que ao dizer nos coloquemos no espaço dos imperativos que emanam do mundo como um jorro ininterrupto de novidade; na exata dimensão do percursor sombrio, na inclinação mínima que retira as potência do seu estado de equilíbrio e as lançam no mundo, nos vacúolos de solidão e de silêncio. Como, porém, fazer cessar as vozes carregadas de significados fixos e ainda assim manter o discurso algo inteligível, mas ao mesmo tempo capaz de liberar as intensidades, os brilhos e as cores que invadem a percepção? O desafio de seguir o brilho evanescente da transitoriedade dos elementos oriniginários está ligado a capacidade de virtualizarmos o mundo.

Uma possibilidade de pensarmos a virtualização seria pensá-la como processo de acolhimento da alteridade, onde as fronteiras nítidas dão lugar a uma fractarização das reparticões e dos limites das formas e da extensão. Falamos aqui de um virtual que é a potência de desterritorialização dos limites que engendram espaços ordenados e fixados por seus significados identitários. Virtualizar, então, seria a capacidade de frequentar um espaço não designável, habitado pelas potências da entidade considerada e que se abre como um complexo problemático, onde as soluções ainda não foram dadas. Justamente ali, no nó das tendências ou das forças que encontram as circunstâncias, no infinitesimal instante das ressonâncias criadoras do mundo. Na inclinação mínima de um vazio máximo onde o caos desagregador escapole para o tempo e o espaço. Esse desvio sempre se dará de forma aleatória e para alcancá-lo há de se abrir mão dos suportes tradicionalmente construídos ao longo da história do conhecimento humano já localizados do espaço das formas fixas e ordenadas, responsáveis por garantir a perenidade do mundo habitado pelos seres da linguagem. Porém o desvio, rigorosamente, é o princípio da vida. Existir, antes de ser algo que assinala a estabilidade, a permanência, a fixação, é um desvio do equilíbrio; se há coisas, se há um mundo é porque eles são divergentes em relação a um estado original integrado. O balé da vida se dá em giros de declinações sobre um eixo móvel, em um movimento que se põem sempre fora de todas as coisas, num ato de singularidade que precipita o movente num turbilhão aleatoriamente constituído. Contudo, descrever este movimento requisitou, por muito tempo, a leis de uma dinâmica onde os atratores fixos desempenhavam um papel fundamental na descrição de cada passagem de um ponto inercial a outro. Por isso, se quisermos avançar para alem desses suportes descritivos temos que apelar para um principio do movimento que não se apóie em um ponto no espaço geometricamente ordenado mas num atrator definitivamente estranho ao princípios dinâmicos tradicionais. Nesse ponto, o processo de virtualização que teve lugar na sobremodernidade é a chave para a comprensão que nos lança em um discurso capaz de se fundar no desvio mínimo do percursor sombrio. No seu rastro chegamos a noção da diferença pura, como um excedente virtual resultante  do aumento da velocidade das trocas entre os conteúdos conectados em uma grande rede. O processo de virtuaização sobremoderno se passa através da capacidade de fazer trafegar, numa velocidade absoluta, em fluxos turbilhionares das chegadas sem partidas, onde o movimento se dá na dimensão do tempo real em espaços inextensos. O resultado desse tráfego em tempo real é a liberação de forças não relacionadas que escapam da ressonância originária de suas ações recíprocas e se apresentam com forças livres, como uma diferença potencial excedente, especulada, que escapa da relação do exato múltiplo que as combinam. Liberadas das cadeias das ressonâncias esse excedente potencial retorna a dimensão das diferenças puras não combinadas e encerradas em si mesmas na sua meta-estabilidade e como temporalidades múltiplas no espaço infinito.

Voltemos ao percursor sombrio, esta potência entre o equilíbrio e o desequilíbrio, ou limiar da passagem, estado estranho de mudança de fase, que vibra entre o ser e o devir. De saída podemos relacioná-lo ao conceito de "clinâmen" ou a declinação mínima que efetua a passagem entre essas duas fases, agindo como operador mínimo da transformação em geral. Deste modo, diríamos que se a existência do mundo é o deslocamento do equilíbrio, quando esse desvio é nulo, não há nascimento. Entretanto, se ele  é mínimo, a voluta se inicia e o objeto se constrói,foge para frente, desenvolve-se e desdobra-se, onde nascer, existir e morrer são apenas variações dessa dinâmica fundamental da transformação dos corpos através das ressonâncias. A partir daí nasce o tempo e a extensão da matéria; a vida dos homens, trabalhos, batalhas, rivalidades, honras, trevas, seus movimentos e sua curta história. Esse movimento de individuação, passagem para o mundo das fases, só é possível ser pensado a partir de um elemento meta-estável como operador dessa passagem e potência de disparação, onde a diferença existente entre as singularidades dos sistemas integrados age como energia potencial, diferença de potencial que desencadeia as ressonâncias  como um motor em si mesmo de onde se desfiam traços diagramáticos por onde trafegam as repartições de potenciais em forma de singularidades discretas, ainda não individuadas, mas tidas como puras tendências, que serão combinadas e comunicadas como informações de um sistema que passa a se bifurcar nos diversos níveis do mundo, da matéria e da vida. Diferente do equilíbrio absoluto, o equilíbrio meta-estável se caracteriza por um estado de homeoestase onde as energias potenciais assumem um valor máximo mas mesmo assim o sistema está em equilíbrio estável dado o movimento de rotação muito rápido das forças de tensão. Essas forças não agem nem sofrem ação recíproca, mas se movimentam livremente carregadas de toda sua potência até que pela supersaturação desse estado homogêneo acontece a passagem para a os estados individuados das ressonâncias onde todas as partes do sistema passam a sofrer a ação de todas as outras partes, não havendo mais forças livres, mas apenas as forças relacionadas nas formas da matéria e da vida. O nascimento do mundo seria então o milagre do desvio de um equilíbrio homeostático pré-individual para um sistema onde as diversas formas que as energias em circulação assumem e relacionam-se nos ciclos homeorréticos da matéria e da vida. O caos original, ao invés de se constituir por choques  e encontros aleatórios no espaço vazio e infinito, se apresenta como a coexistência de forças livres em uma circulação onde os as potências não se relacionam, se chocam ou se encontram. A atualização da circulação de forças é como uma diferencial e mudança de sentido, diferença infinitesimal que gera o sentido a partir de um feixe de paralelas em um campo uniforme, dando origem aos vetores no campo espacial da extensão.

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Quando pensamos a sobremodernidade como a era onde a capacidade de virtualização das formas da matéria e da vida, esbarramos no mote que que acompanha o existir dos seres da linguagem, atônitos pela transitoriedade do movimento do mundo que invade seus sentidos, cuja sua vida é o principal exemplo. O esforço sobremoderno embora se assemelhe as demais tentativas de restituir a ordem e o equilíbrio a uma realidade marcada pelo fluxo das constantes transformações do devir, vem diferir delas na medida em que é o excesso de multiplicidade e de devir que levará esta tarefa adiante. Na perspectiva dessa multiplicidade, os dispositivos de criação e equilíbrio da ordem sobremoderna trabalham através do escoamento do devir  em uma distribuição fragmentária. A partir da criação de diversos mundos possíveis que se intercomunicam através de conexões cada vez mais velozes e significações cada vez mais voláteis, o princípio da mobilidade desse fluxo, que se distribui através de ressonâncias múltiplas, consiste na possibilidade de multiplicação da diferença de maneira ilimitadao. Segundo as idéias da mecânica clássica, não existe sistema que esteja subtraído a toda e qualquer ação externa; todas as partes do universo sofrem, com maior ou menor intensidade, a ação de todas as outras partes. Assim, não existiria força livre ou fora do alcance das ressonâncias, uma vez que os sistemas dinâmicos se constituiriam como um conjunto de forças relacionadas. Contudo, se imaginamos que a multiplicação das ressonâncias através de um fluxo em alta velocidade é viabilizado pelo tráfego nas redes informacionais de escoamento do devir, composto de uma pluralidade de forças irredutíveis em luta, essa multiplicação se processaria num campo de espaços inextensos em um tempo infinitesimal onde o aumento da velocidade das trocas e a redução dos espaços e do tempo criam diferenças de intensidade através da multiplicação da potência de uma força cuja a ação instantânea a libera para uma nova ação, transformando-a em força não relacionada, livre e, portanto, excedente. Este excedente é redistribuído sem que entre em uma nova relação de forças, mas assumindo a função de potência criadora que reconstitui os recursos, as reservas energéticas e os dispositivos geradores de atos.


As forças, então, escapam do controle da definição que visa adequar os objetos da percepção ao conjunto limitado de significados. Elas estarão sem livres para exercerem sua potência múltipla, num ritornelo, onde a linguagem deverá transformar-se em uma glossolália, onde o falante se torna incapaz de repetir os enunciados já pronunciados no seu gaguejar de palavras frouxas. O jogo entre o significante e o significado passa a encarar a lacuna designante como um silêncio onde sobram apenas murmúrios e ais, deixando a equivocidade o levar alhures, sem que se precise negar ou adequar. Descubrir o múltipo em cada abertura, novas possibilidades em cada relação de forças, que se desmancham antes que se consiga defini-las, escorrendo entre os códigos dos enunciados. Os códigos rizomáticos da sobremodernidade são justamente esse emaranhado circulante onde não se pode mais definir partidas ou chegadas, mas onde cada desfiar de sua trama traz consigo um nó de tendências."Quais seriam as forças em jogo, com as quais as forças do homem entrariam em relação? Não seria mais a elevação ao infinito, nem a finitude, mas um finito-ilimitado, se dermos esse nome a toda situação de força em que o número finito de componentes produz uma diversidade ilimitada de combinações" (Gilles Deleuze). Esse é o discurso da sobremoderniodade. Os vacúolos de não-comunicação sobremodernos põe o falante diante dos signos vazios, ou melhor, dos impetrativos que deles emanam, como um complexo de tendências, para além daquilo que ele designa em cada objeto que invade os sentidos, na sensação desses encontros e nó de tendências que está além das designações dos significados e onde a impossibilidade de aprisionar aquilo que emana dos signos, em uma identidade entre o observador e o objeto, libera potências impossíveis de serem descritas pelos estoques unificadores da memória. Diria, que liberta o falante do signo e o leva ao esquecimento. Nesta galeria neutra e mista, o passante ou passador, subitamente tornado neutro, misturará em si as naturezas, as línguas, os gestos, até neles se dissolver e perder. Se a sua vida o fez errar em muitos braços de mar, o seu corpo e o seu espírito terão aprendido e misturado tanta diversidade ao ponto de alcançar, em si e sobre si, a brancura imaculada do próprio lugar de onde se possa dizer seu. Discutiu-se muito a aparente apatia da geração pós-ideologias e hoje se começa a ter noção que a aparente apatia, ou neutralidade é justamente a maior potência da atual geração. A falta de identidade e a assunção de uma multiplicidade transitiva, a todo instante, é o movimento que tem conduzido essa geração para uma nova forma de lidar com o devir, justamente pelo excesso de devir. A entrada dos dados, ao alimentarem as máquinas de processamento, não permite mais que se preveja o resultado, pois a saída pode se comportar imprevisivelmente, oscilando uma série de vezes, uma vez que não encontram-se totalmente ligados numa relação mutua fixa, onde cada ação possa determinar uma reação linear específica.

Se através do percursor sombrio, as potências declinam minimamente até tocarem-se em um espaço e tempo infinitezimal e produzirem as formas do mundo, é através dos movimentos acelerados dos conteúdos circulantes que se decompõe as formas em potências não relacionadas lançando-as de volta ao estado meta-estável, onde a unidade dos conteúdos conectados em rede, assume o caráter de pura multiplicidade e indeterminação de forças não relacionadas, isoladas uma das outras pela fragmentação rizomática do espaço da rede. Neste não-lugar, o multipertencimento dos ocnteúdos alterados instantaneamente pela ação contínua dos enunciados das formas de expressão, estabelece um jogo, cuja dinâmica conta com a ação das potências infinitamente multiplicadas. Essas frequências se distribuem a partir de um espaçamento, no qual a multiplicidade das partículas intinitesimais que constituem os conteúdos e suas relações constituem um espaço unidimensional meta-estável. A fala perde, então, o suporte em pontos fixos do espaço da representação e ao invés de remeter os sujeitos a objetos em um campo delimitado de significados fixos, oscila como frequência livre de uma absoluta diferença, isolada na teia da rede, conectada a todos os conteúdos mas reivindicando sua singularidade, uma vez que o funcionamento de uma rede não dispõe os conteúdos de uma forma sistêmcia e, portanto, atravessa a distinção usual entre palavras e coisas,  lançando os conteúdos e as expressões num movimento fractal cada vez mais rápido no ciberespaço. Assim a diferença surge pelo excesso de conteúdos circulantes, liberando um potencial excedente que se desloca continuamente e criando, exponencialmente,  ilimitadas possibilidades, diluindo as formas do mundo em rastros de passagem dos conteúdos, onde sobram apenas o seu eco; intensidade que vibra e que se afirma como tonalidade de um silêncio eterno dos vacúolos de solidão.

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