quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Geografia do Lugar Nenhum

“O devir não é mais o negativo do ser, torna-se uma dimensão do ser, correspondente a uma capacidade que o ser tem de se defasar em relação a si mesmo, de se resolver defasando-se”. (Gilles Deleuze)

 

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Olhos de Pedra
Carbono e Cilício
Como considerar um objeto qualquer a partir da perspectiva de um processo de ilimitada mudança? A identificação das coisas se dá através da capacidade de se gerar um quadro geral que limite e reparta em fases tudo aquilo que permanece e a partir daí se possa traçar um princípio de identidade. As fases seriam os estados de coisas de um Ser no qual se realiza uma individuação e onde uma resolução qualquer aparece pela repartição dos traços comuns.  Uma vez que se tenha a capacidade de fixar os traços que permanecem em uma repetição do mesmo arranjo, estabelece-se uma relação indenitária entre grupamentos que se identificam por semelhança ou dessemelhança. Daí ser possível reconhecer os objetos através do seu Ser e dizer o que deles permanece como sua identidade. Se passarmos à analisar o processo de reconhecimento daquilo que permanece como traço indenitário, por um sujeito  que relaciona as repartições e as identifica, encontramos uma interioridade que reflete e organiza os elementos como imagens dessa delimitação e onde cada imagem recupera aquilo que permanece dentro dos limites de uma identidade qualquer. Porém, a simples constatação de que o processo de recognição envolve um mundo em movimento, faz com que toda observação se constitua como um processo dinâmico de relacionar aquilo que se repete, colocando em evidência a permanência de determinados arranjos cujos limites estabelecem a condição de identifica-los ao longo de uma cadeia de transformações no tempo e no espaço.

A história do pensamento se constituiu como uma tentativa de se delimitar as identidades e encontrar nas repartições em fases o Ser das coisas. As fases são os estados no qual se identifica um arranjo qualquer de combinações que pode ser recuperado a qualquer momento pelo ato da recognição. O ovo; o embrião; o feto; a  noite; o dia; o tempo; o ar; a chuva; a terra. Fases repartidas que organizam o estado de coisas que carregam em si sua identidade entre um piscar de olhos que não tem dificuldade de reconhece-las uma vez que elas estão catalogadas em imagens interiores do sujeito cognoscente. A próxima tarefa é dizê-las. E aí surge a linguagem como o instrumento que possibilita a expressão das identidades, através de um esforço de organizar um mundo onde coabitam as coisas, suas imagens e o sujeito que as percebe, as cria e as diz, onde se deve ser capaz de identificar, imediatamente, as palavras, às imagens e as coisas. Assim, esse dizer deve evitar, ao máximo, a equivocidade que coloque em risco a identificação entre tais arranjos, sob pena de um aturdimento que comprometa todo esse processo. Sendo assim, não é difícil entender o porque do Devir ter sempre representado ao longo dessa história uma ameaça a dissolução do mundo organizado pelas identidades, uma vez que nele não é possível capturar traços distintivos do Ser, ressaltando a capacidade  que o Ser tem de nele se defasar em relação a si mesmo, criando uma diferença absoluta na qual já não existem fases que possam ser tidas como semelhantes ou diferentes,  mas uma multiplicidade  onde o múltiplo já não é um adjetivo ainda subordinado ao Um que se divide ou ao Ser que o engloba, mas tornou-se substantivo, uma multiplicidade, que habita continuamente cada coisa.

Diferente da identidade do Ser a multiplicidade do Devir abre uma linha de fuga por onde passam todas as mudanças e onde não se é capaz de dizer, se não, o tempo e o espaço levados ao infinitivo.  Nele não se procura a adequação entre os significantes e o significado referente quando se diz, pois não se diz mas o que a coisa é mas no que ela constantemente está se tornando. Para compreender esse movimento no infinitivo, onde não se destaca mais o verde, a árvore, o dia ou a noite, mas o verdejar, o arborescer, o amanhecer e o anoitecer, vai-se em busca do Acontecimento; uma multiplicidade de agenciamentos de termos heterogêneos que estabelece ligações e relações ente eles ao longo de ilimitados movimentos de contágio. Ao invés de se definir através da catalogação de características comum que representam um gênero , espécie ou função,  persegue-se os agenciamentos nos quais cada termo entra e sai no seu processo de vir-a-ser. Não há de se falar em estados do ser mas das relações conjugadas que defasam as formas, através de um Acontecimento que se estende e se contrai no Devir de um infinitivo movimento de um diferente amanhecer a cada dia, dando sempre um novo céu, um céu que aqui pode assumir o posto do infinito, onde sua estrutura ilimitada e ausência de fronteiras contrasta com um espaço ocupado por todas as extensões e as coisas materiais diferenciadas através da experiência sensível. Cores e formas estendidas acima de nossas cabeças são apenas limitadas pela linha do horizonte que, aparentemente, fixa-se ao redor de um espaço ocupado pelos objetos  sobrepostos. Como uma dobra que distingue o volume de dados fixados pela nossa visão, o horizonte aparecer como o último limite da percepção sensível. Além desta linha, temos apenas o caos de possibilidades dependentes da abstração que cria um plano para projetar as formas do nosso pensamento. Nossos sentidos não são capazes de adquirir cada forma, a menos que a abstração organize o mundo apreendido pela percepção, criando um apoio para o pensamento e para cada coisa representada por ele. Se a abstração  fornece o  apoio ao pensamento é a linguagem que suporta as formas abstraídas do pensamento.
O mundo adquirido pela experiência sensível, representado pelo pensamento e descrito pela linguagem vem até nós e temos que nos tornar capazes de separar o que é observado do ponto de observação onde se encontra o sujeito e onde cada possibilidade poderia ser a virada de chave” para o mundo das formas. Esse é o plano onde o ato de conhecer tende a coincidir com o ato que gera a realidade, e podemos chamá-lo de plano de referência. Um espaço onde são constituídos os limites ou fronteiras em que o sujeito confronta o caos de todas as possibilidades como uma pluralidade de mundos que emerge de um estado contínuo de fluxo. Esse é o plano de onde as diferenças entre o conteúdos aparecem e permitem ao sujeito dizer o objeto. As diferenças surgem quando o sujeito em si superou o conteúdo no qual está misturado  e a excitação gerada por este movimento é conectada em uma cadeia de sínteses que constitui o processo do conhecimento. Se temos a intenção de atingir   a potência que subjaz em cada conteúdo, ao longo do processo de cognição, faz-se necessário que compreendamos de que maneira a abstração funciona com primeiro suporte para a o processo de reconhecimento e definição do estado de coisas que saltam a existência no momento que cada conteúdo  aparece para o sujeito da abstração - tudo que percebemos, sentimos e pensamos. A partir desse ponto, vem a distinção entre dentro e fora, sujeito e mundo. A abstração cria medidas para ver e para descrever,  numa sequência de eventos que produz o tempo e o espaço, regulamentando essa sequência e abordando as coisas em um movimento em que um conteúdo está relacionado a outro. Se queremos chegar a duração pura dos eventos fora do limite de tempo e espaço, temos que  recusar a usar a abstração como essa ferramenta  do pensamento. Como poderíamos, porém, ser capazes de superar a abstração? A resposta deve passar para além do limite de cada imagem do pensamento, onde encontram-se os dinamismos que se recusam  admitir a pura determinação e onde os conteúdos escapam das categorias tradicionais do pensamento abstrato e de uma língua ordinária como o apoio à abstração.

O problema deve conduzir-nos a uma linguagem que é livre para operar a viagem para os (não) lugares do dinamismo puro onde o pensamento é formado, sem fixar formas da abstração e onde somos capazes de ouvir os sons do silêncio, ausências e lacunas que nos pões em contato direto com a força do virtual. Seria melhor que já pudéssemos definir, nesse momento, o conceito de virtual, empurrando as frases muito longe e à frente dos limites da linguagem da abstração, recuperando o potencial deitado sob as palavras, fora do campo de atualização e livre de toda e qualquer medida.  Por se consistir num movimento ilimitado e sem suportes referenciais o virtual localiza-se numa dimensão do antes-de-ser, onde as potências, através de uma desaceleração que produz as diferenças, adquirem as formas a partir das quais se  permite s dizer o mundo apreendido pela percepção. Nesse ponte se requer uma operação que não implica em qualquer ponto de partida ou de chegada porque estamos  impedidos de  fixar as diferenças e repetições pelo princípio da identidade, onde o tempo deve ser tomado como um todo, que salta sobre a ruptura de presentes repetitivos, abrindo um espaço sem extensão, apenas povoado por multiplicidades intensivas. Entrar nesse universo requer um cuidado especial se não se tem a intenção de cair em um completo aturdimento, tendo em conta que começar a velejar nesse campo é adentrar em um rio que é um líquido misturado que nunca pode parar de correr, como originalmente descrito por Heráclito. Se superarmos a abstração como o limite último da realidade, entramos em uma dimensão que poderia ser considerada impensável e indescritível, à primeira vista, a menos que se admita submergir  em um rio sem margem, superfície ou fundo, que corre nos "não-lugares" onde o pensamento foge, a linguagem escapa e a abstração perde seu sentido.

Para marcar esse caminho até o virtual como um requisito para o pensamento sem abstração, voltando-nos a Nietzsche e sua crítica da história, onde ele denuncia a importância da memória como uma ferramenta que corrige o presente e cria um campo onde o tempo é arquivado como solução de continuidade do pensar; organizando o passado e futuro que fogem do presente, transformando o movimento da vida em um bloco de extensão linear. Apelando ao “esquecimento” como um instrumento de libertação dessa cadeia de significados temporais ele descreve esse sentimento a partir da visão dos rebanhos que pastam sem saber sobre o ontem ou hoje,  na primavera ao redor, onde comem, descansam, digerem, saltam novamente e assim, de manhã até à noite e de um dia até outro dia, com seus gostos e desgostos intimamente ligados a instantaneidade do momento, sem melancolia ou cansaço. Ao mesmo tempo, voltemo-nos para a definição de liberdade em Spinoza, onde uma coisa é dita livre, quando existe pela necessidade de sua natureza e em si mesma está determinada a agir. Essa determinação, no entanto, não está ligada a vontade autônoma de um sujeito qualquer, mais a potência desumana para a vida. Nem categórica nem hipotética, mas impulso imperativo como natural. Tudo é natural se considerarmos a natureza como um conjunto de forças em um relacionamento constante.  Nietzsche chama essas forças de "quantum”. Forças que dão forma e sustentam tudo o que existe. Forças que não se limitam porque mudam a todo tempo tentando encontrar um espaço de expressão. Forças gerando formas, a matéria densa e visível e a matéria invisível aos olhos; matéria orgânica e inorgânica, formas de conteúdo e formas de expressão, os corpos, os instintos, as paixões; energia que mantem as coisas agindo o seu ser. Segundo Nietzsche, "quando algo acontece dessa ou daquela forma e não de outra forma, não é a consequência de um princípio de uma lei ou ordem, mas ele mostra como as forças estão no trabalho e como elas exercem sua potência sobre outras forças (...) Um quantum de força é definido pela ação que ela produz e pelo efeito que a resiste " (Nietzsche).

Tudo o que existe se resume como um processo interativo de forças. Chamamos essas forças relacionadas, então, formas da natureza, uma vez que consideramos a natureza como a essência de todas as coisas que existem, e só através de sua natureza existem, nesta ou naquela forma e não em outra. Cada coisa traz uma forma de existir de uma maneira específica e que continua a liberar sua potência, mesmo quando enfrenta a potência de qualquer outra forma que intervém e evita que ela siga seu curso. A forma da chuva que cai e que para de cair quando a terra aparece como a forma que a faz correr no leito do rio, até que a forma do sol comece a evapora-la, quando então  ela encontra a forma do frio e se condensando se faz nuvem . A forma de excitação sexual de um corpo com outro corpo que segue animando mudanças até que essa excitação, pela explosão de uma forma orgasmo faça com que o forma derramamento de sêmen corra para encontrar a forma de um ovo que o impede de continuar funcionando como sêmen através fertilização que libera a forma óvulo e as potências das formas de um processo meiótico que a faz multiplicar em unidades cada vez maiores da vida. A realidade que invade os sentidos consiste na forças relacionadas nas formas, num mundo que aparece como intensiva relação entre elas. O poder de observar e descrever esse processo é um estado dos seres de linguagem chamados, por si mesmo, de animais racionais, que apreendem as formas do mundo e as organizam no espaço e no tempo, fazendo com que essas formas assumam particular importância na cadeia da significação de sua relação  no mundo. A capacidade de obter os conteúdo que se levantam frente a percepção sensível, cria as fronteiras entre as dimensões do interior, exterior, altura, largura e profundidade, separando conteúdos no tempo e no espaço, catalogando e gravando as formas em sua memória. Isso torna o animal racional capaz de reproduzir pelos nomes que definem. Em seguida, os seres da memória constroem um mundo particular através da linguagem e esse mundo é composto de objetos vivos e inanimados que, através da taxonomia dos conteúdos da natureza faz erigir torres de observação, como uma espécie de habitat privilegiado para os seres racionais.

Através de sínteses produzidas pela percepção sensível, pela memória e pela linguagem este ser vai criando as diferenças fundamentais que o permite torna-se ser-homem. Através de um incansável esforço, passa então a distinguir as diversas formas da natureza, para ajudá-lo a governar sobre elas. Como o fluxo da natureza é impermanente, considerando a ação dos diversos quantum de forças que produzem as formas que resistem reciprocamente  nas intermináveis mudanças processadas na realidade do mundo, o homem tenta destacar as  formas que não mudam em sua própria essência e por  prevalecem sobre as demais, e dessa maneira, tenta estabelecer um limite entre o mutável e o imutável, o impermanente e permanente, já que o mundo parece não protegê-lo da avalanche de transitoriedade que ameaça devolvê-lo ao estado indiferenciado, do qual nasceu para se estabelecer como observador através da capacidade de reter o momento presente em sua memória e transforma-lo em história. Fora desta história através da qual o ser é dito, por ele mesmo humano, multiplicam-se misturas de forças singulares. Mesmo fora dos  limites pelos quais se pode descrever esse processo, os significados da linguagem tendem a fixar as causas e efeitos dessa humanidade, que sempre esbarra nesses limites, mesmo se o ser continua subindo ao mais alto dos céus sobre sua cabeça ou indo ao mais profundo do abismo sob seus pés. Estes limites foram estabelecidos por diversas representações ao longo da história humana, sempre no intuito de proteger os seres da linguagem da ameaça de uma vertigem que quer dissolve-lo de volta na natureza como um potência, juntamente com outras, sem memória da história, ou  consciência do processo de estar no mundo.
Entre Azuis

Cinzazul
Tons do Mesmo Céu
No entanto, se temos a intenção de atingir o lugar do campo de forças em sua relação intensiva, fora do sentido ordinário da matéria densa ocupando uma dimensão extensa, precisamos lidar com lugares que não podem ser confundidos com o espaço da extensão onde as formas se encontram, mas um espaço de multiplicidade de intensidades em um movimento ilimitado. Neste plano, o pensamento carece desterritorializar as formas da matéria densa até que se faça esbarrar na multiplicidade de singularidades e nas linhas de variação perpétua. Multiplicidade, aqui, seria então um movimento ilimitado de potências em um caos de convivência e sua essência é uma frequência como vibração de intensidades múltiplas. O mundo do espaço extenso aparece quando as potências tendem a se despedir do caos, abandoná-lo em favor da regularidade e previsibilidade dos fenômenos, através da cristalização que traça vetores entre o caos e a ordem. Se temos a intenção de encontrar o caos em estado puro e sem limites, como multiplicidade de potências em um movimento descontínuo, temos que atravessar o limite das formas através de um pensamento que seja capaz de entrar na variabilidade absoluta, movendo-se nas velocidades diversas das caóticas forças. A matéria densa, que ocupa o espaço das medidas, surge do caos como uma relação de forças diferentes. Se o caos consiste em um campo de modulação incessante das diferenças, o processo de atualização da matéria densa  consiste em relações que se constituem através da aceleração e as paradas dessas forças, distribuindo as intensidades e reduzindo a diferença à identidade. A atualização move fluxos de proliferação de diferenças até sua redução e é dada como a equalização da diferença. Diferença, nesse sentido, é o absolutamente diferente; as forças indeterminadas de um fluxo descontínuo, que tem a diferença em si como sua condição, num movimento de coexistência de diferentes ritmos como potência geradora. Seus ritmos diferentes podem ser descritos como energia potencial e elemento fundamental de um estado integrado, onde a instabilidade deste fluxo está diretamente relacionada as forças e à sua atividade. Quanto mais um estado é integrado, maior é a energia potencial ou a energia livre em seu fluxo. Energia livre é um movimento descontínuo de forças em um estado de diferença absoluta. O estado integrado também pode ser descrito como uma repetição dessa diferença absoluta num jorro imprevisível de novidade. O estado integrado é a dimensão do virtual como um movimento de forças ou tendências em seu processo absoluto de diferença. O virtual é a diferença pura, o novo, diferença absoluta que se repete como novidade, fazendo cada vez como a primeira de uma série que é sempre capaz de diferir de si mesma. Ele é o que Nietzsche chamava de "eterno retorno". Não o do mesmo, mas do novo e do absolutamente diferente. A matéria como forma de conteúdo aparece quando essa série de forças divergentes resultam na formulação como produto da  diferença, correlacionando frequências com um apetite de novidade e lançando-as num campo de atualização.

Nessa perspectiva o virtual pode ser pensado como um fluxo intenso de lugar nenhum para nenhum lugar, em um movimento que não pode ser descrito em termos de uma trajetória geométrica espacial, mas apenas em um campo  de  frequências sem interação. Frequência é o modo como as forças estão tensionadas, podendo ser expressas em termos de vibrações. Existem dois tipos de relação de frequências. Um produz sistemas integrados, onde não existe uma interação das frequências  e um outro que produz um sistema não integrado, onde a interação das frequências é dada por ressonâncias. A correlação de frequências prossegue minimizando as variações e tendendo a limitar a ação das forças, em ciclos cada vez mais estreitos, resultando na codificação do fluxo da matéria-movimento, em um processo de sedimentação que leva a uma diferença de graus de sistemas não integrados . Neste ponto, poderíamos definir o mundo da matéria densa como um processo de estratificação de sistemas não integrados. No final do século XIX, Henri Poincaré demonstrou a diferença fundamental entre sistemas integrados e não integrados. Ele concluiu que a maioria dos sistemas dinâmicos não eram integrados. Um sistema dinâmico integrado é dito como um sistema onde as variáveis podem ser definidas pela distribuição de um conjunto de forças livres que levam esse sistema a se comportar isomorficamente. Ele demonstrou que apenas uma reduzida classe de sistemas dinâmicos eram  integrados e que essa integração é ameaçada pela existência de ressonâncias entre os graus de liberdade em um sistema. A ressonância pode ser tida como uma relação de interação entre as frequências e é produzida quando uma das frequências é equivalente a um múltiplo inteiro da outra. Os sistemas integrados poderiam ser representados como sendo constituído por organismos sem a interação, em um campo de pura qualitatividade das diferenças. A dimensão de tensões e vibrações que expandem-se como um movimento ilimitado de uma diferença pura é o que chamamos de a dimensão do virtual. Por outro lado, sistemas não integrados representam um campo onde a colisão de forças faz uma simétrica distribuição de diferentes velocidades e cria a correlação das forças em um fluxo que reduz a diferença pura, ou a diferença de espécie, a diferença de graus de energia . A luz emitida e absorvida, o acoplamento de sons e quantum de energia, são  resultados de diferenças entre  os níveis de força como o limite da expansão e duração pura do virtual. O ponto mínimo dessa interação aprece também como uma frequência onde a forma indica o modo como as diferenças de intensidades são comunicados em um espaço de extensão. Assim, a matéria densa é um espaço de contração de vibrações em um ponto de interação de forças que determinam o campo de individuação dos eventos atualizados. Até este ponto a diferença pura não solicita qualquer outro elemento que não a  multiplicidade das forças  que assumem o espectro de um monismo isomórfico de um movimento sem interação das partículas, energias ou potências.  O movimento no campo da integração é um eterno retorno da expansão das forças como uma diferença absoluta de uma duração. No entanto, a questão principal é dada no mesmo ponto. Como as ressonâncias ocorrem no processo do virtual para o campo atual de sistemas não integrados?

Voltando aos pensadores pré-socráticos vemos encontramos um elemento introduzido, como responsável pela passagem do virtual para a dimensão atual: o "clinamen". De acordo com Lucrécio ele é a guinada imprevisível que ocorre "em nenhum lugar fixo ou tempo. Os primeiros atomistas concebiam o processo de formação do mundo material como uma queda dos átomos que se moveriam para baixo através do vazio, pelo seu próprio peso, até começarem a se desviar um pouco em um espaço e num empo bastante incertos,  apenas o suficiente para que pudéssemos  dizer que seu movimento mudou. Mas se eles não tinham o hábito de desviar-se, todos eles cairiam para baixo através das profundezas do vazio, como gotas de chuva, e nenhuma colisão ocorreria, nem qualquer choque seria produzido entre os átomos. Nesse caso, a natureza nunca teria produzido nada. De acordo com os atomistas em primeiro lugar, a natureza global é formada pelo conjunto de átomos em um isomorfia estática e entrópica que pode ser comparada com um estado de  morte. As coisas seriam estática em um fluxo perpétuo. Assim, os átomos seriam imortais e estariam em queda livre, sem se tocar entre si, num  e fluxo paralelo equivalente ao princípio da inércia. O "clinamen" seria a inclinação na cadeia atômica inerte como uma força motriz ou o ângulo mínimo que produz choques e reviravoltas no tempo e no espaço da dinâmica. Neste sentido, o estado original das coisas descritas pelos atomistas está mais perto de representar o sistema integrado de Poincaré, onde o "clinamen" seria responsável pelas ressonâncias entre as forças. Portanto, o isomorfismo do sistema integrado é o estado de coexistência de uma multiplicidade de quantum de energias em um movimento estático, no campo virtual de um eterno silêncio dos espaços infinitos. Quando o silêncio é quebrado, o campo atual das forças correlacionadas aparece e reúne o mundo e a vida. O mundo, objetos, corpos e até mesmo a alma seriam parte de um declínio de um sistema integrado. A natureza se recusou a morrer exatamente quando ela nasceu, mas continua a cair de volta à morte que é o estado integrado e isomórfico de forças que não interagem entre si neste estado imortal; imortal só porque  não nasceu ainda. O processo de formação do mundo e dos estados de coisas é uma relação de forças em suas ressonâncias, descendo em um processo de existência, em choques e interação.

A pergunta agora é: O que faz uma força a insistir, persistir em sua potência, mesmo quando outra força a ela se opõem? Diríamos que a persistência é a natureza da força que faz com que ele tenda a algo sem ser capaz de se liberar dessa ação particular. Se considerarmos que toda forma é uma relação de forças e que todo  corpo é o último limite da unidade de formas, diríamos que certos organismos  tendem a insistir por causa de sua própria natureza, e nenhum outro conjunto de forças relacionadas é capaz de detê-lo, mas apenas  extermina-lo. Parece algo facilmente observável que a natureza das coisas carrega, em si, a potência de continuidade, mas a relação entre essas potências libera poderes que irão impedir que as forças continuem a subsistir enquanto potência, forçando-as num processo de interação que é a origem do estado de coisas do mundo. Porém, não basta aqui afirmar que o movimento das forças é composto pelas dimensões virtuais e atuais, enquanto não pudermos explicar como é processada a passagem entre essas duas dimensões pelos poderes que interagem as potências. Com as coisas se tornam o que elas são? Como vislumbrar o produtor dessa passagem? Uma força que ninguém sabe? Como evitar, de saída, a ideia de um primeiro produtor como motor? Como parar a fonte de vazamento infinito das forças? Como evitar um primeiro motor transcendente, fora do mundo da natureza como elemento separado.  E se por acaso conseguirmos enxergar essa passagem, como dizê-la?

 

sábado, 17 de setembro de 2011

A Fala, o Falante e os Conteúdos Falados - uma Dança Meta-Estável


 

"É preciso um desvio da fala. Criar foi sempre coisa distinta de comunicar. O importante talvez venha a ser criar vacúolos de não-comunicação, interruptores, para escapar ao controle" (Gilles Deleuze).

 

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Picasso cubismo arte

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Dizer algo que se abre a percepção mantendo o campo da fala como um campo onde se relacionam as diferenças, é seguir essas diferenças através de um discurso nômade, através dos desvios, dos saltos e do jorro imprevisível de novidade. Como então poderemos dizer tais diferenças através de uma linguagem que é o fundamento de uma abstração que organiza o mundo através do esquadrinhamento de um espaço fechado, onde os significantes invequívocos reproduzem as regularidades como forma de controle absoluto e, portanto, como determinação exata e sem hesitação do poder da ordem. Precisaríamos, de saída, afirmar a errância de um mundo múltiplo e semovente, pelo qual intensidades sempre heterogêneas, sempre diferentes entre si, se conectam e se desconectam permanentemente. Esse mundo jamais poderia ser encerrado em um recinto de um sistema fechado, uma vez que ele é o lugar da desordem, do imprevisível, do incerto e do informe. Chegar aos vacúolos de solidão e de silêncio, ali onde algo mereceria ser dito, seria, então, atingir o lugar enigmático onde estes acontecimentos se passam; onde alguma coisa passa entre os bordos; estouram acontecimentos e fulguram fenômenos. Mundo da multiplicidade de elementos, sem designação nem significação, mas que se apontam e se determinam reciprocamente a partir de relações diferenciais que pertencem ao campo do virtual. Contrariamente e de forma ordinária, a linguagem ordenadora dos significados fixos pertence ao campo da atualidade. A "atualização, diferenciação ou gênese converte as relações diferenciais em espécies  distintas e as singularidades nas partes e figuras extensas relativas a cada espécie. A diferenciação é especificação e organização, é qualificação e composição, é qualitativa e quantitativa. Ela desdobra as virtualidades em seus produtos empíricos, mas sem jamais esgotá-las, mesmo porque elas perduram segundo as linhas divergentes atuais" (Gilles Deleuze). Neste ponto há de se invocar um termo, que seria responsável pela passagem entre essas duas dimensões, como "campo que põe em relação as multiplicidades virtuais e as forças do fora, o que, por sua vez, vai desatar o processo de atualização"(Gilles Deleuze). Deleuze o chama de "percursor sombrio". Um intensidade individuante que age como um misterioso portal que garante o mundo em sua discordância, marcha da criação e da novidade. Um elemento de sustentação das ressonâncias entre potências em suas diferenças absolutas, que como partículas em movimento num vazio, seguem em sua infinita marcha sem se tocarem, até que uma inclinação mínima as combinam e as fazem aparecer como um raio que fulgura as formas do mundo.

Essa inclinação de passagem, não figura no espaço da extensão e no tempo da sucessão dos instantes, pois esses já dizem respeito ao mundo apreendido pelos sentidos, que por sua vez habita a mesma dimensão. Não pode ser abstraído, pois o movimento de abstração esquadrinha a realidade a partir da um recorte que se apóia nos limites da reprodução de uma identidade que faz com que as formas se encaixem nas linhas através de pontos determinados no espaço. Se partirmos de uma perspectiva que nos coloque frente a frente com o abismo referencial da falta de suportes para apreendermos o mundo que nos chega pela percepção sensivel, temos que aprovisionar um sentido provisorio que nos permita referir as coisas a partir de uma abertura que nos remeta, continuamente, a transitoridade dos elementos que surgem diante dos sentidos e desaparecem imediatamente após, sem que se possa fixar um significado. Como, porem, dizer esse mundo, quando o que fica são apenas intensidades que nos tocam como raios que desaparecem logo apos manifestar seu brilho. A solução, talvez, pareça estar ligada muito mais ao ato de dizer as coisas e o mundo, uma vez que ao utilizar os signos para designar os objetos que se abrem a percepção criamos, imediatamente, uma relação identitária que nos rouba a riqueza da multiplicidade que está diante de nós nesse encontro. Daí, a necessidade de um desvio na fala, para que ao dizer nos coloquemos no espaço dos imperativos que emanam do mundo como um jorro ininterrupto de novidade; na exata dimensão do percursor sombrio, na inclinação mínima que retira as potência do seu estado de equilíbrio e as lançam no mundo, nos vacúolos de solidão e de silêncio. Como, porém, fazer cessar as vozes carregadas de significados fixos e ainda assim manter o discurso algo inteligível, mas ao mesmo tempo capaz de liberar as intensidades, os brilhos e as cores que invadem a percepção? O desafio de seguir o brilho evanescente da transitoriedade dos elementos oriniginários está ligado a capacidade de virtualizarmos o mundo.

Uma possibilidade de pensarmos a virtualização seria pensá-la como processo de acolhimento da alteridade, onde as fronteiras nítidas dão lugar a uma fractarização das reparticões e dos limites das formas e da extensão. Falamos aqui de um virtual que é a potência de desterritorialização dos limites que engendram espaços ordenados e fixados por seus significados identitários. Virtualizar, então, seria a capacidade de frequentar um espaço não designável, habitado pelas potências da entidade considerada e que se abre como um complexo problemático, onde as soluções ainda não foram dadas. Justamente ali, no nó das tendências ou das forças que encontram as circunstâncias, no infinitesimal instante das ressonâncias criadoras do mundo. Na inclinação mínima de um vazio máximo onde o caos desagregador escapole para o tempo e o espaço. Esse desvio sempre se dará de forma aleatória e para alcancá-lo há de se abrir mão dos suportes tradicionalmente construídos ao longo da história do conhecimento humano já localizados do espaço das formas fixas e ordenadas, responsáveis por garantir a perenidade do mundo habitado pelos seres da linguagem. Porém o desvio, rigorosamente, é o princípio da vida. Existir, antes de ser algo que assinala a estabilidade, a permanência, a fixação, é um desvio do equilíbrio; se há coisas, se há um mundo é porque eles são divergentes em relação a um estado original integrado. O balé da vida se dá em giros de declinações sobre um eixo móvel, em um movimento que se põem sempre fora de todas as coisas, num ato de singularidade que precipita o movente num turbilhão aleatoriamente constituído. Contudo, descrever este movimento requisitou, por muito tempo, a leis de uma dinâmica onde os atratores fixos desempenhavam um papel fundamental na descrição de cada passagem de um ponto inercial a outro. Por isso, se quisermos avançar para alem desses suportes descritivos temos que apelar para um principio do movimento que não se apóie em um ponto no espaço geometricamente ordenado mas num atrator definitivamente estranho ao princípios dinâmicos tradicionais. Nesse ponto, o processo de virtualização que teve lugar na sobremodernidade é a chave para a comprensão que nos lança em um discurso capaz de se fundar no desvio mínimo do percursor sombrio. No seu rastro chegamos a noção da diferença pura, como um excedente virtual resultante  do aumento da velocidade das trocas entre os conteúdos conectados em uma grande rede. O processo de virtuaização sobremoderno se passa através da capacidade de fazer trafegar, numa velocidade absoluta, em fluxos turbilhionares das chegadas sem partidas, onde o movimento se dá na dimensão do tempo real em espaços inextensos. O resultado desse tráfego em tempo real é a liberação de forças não relacionadas que escapam da ressonância originária de suas ações recíprocas e se apresentam com forças livres, como uma diferença potencial excedente, especulada, que escapa da relação do exato múltiplo que as combinam. Liberadas das cadeias das ressonâncias esse excedente potencial retorna a dimensão das diferenças puras não combinadas e encerradas em si mesmas na sua meta-estabilidade e como temporalidades múltiplas no espaço infinito.

Voltemos ao percursor sombrio, esta potência entre o equilíbrio e o desequilíbrio, ou limiar da passagem, estado estranho de mudança de fase, que vibra entre o ser e o devir. De saída podemos relacioná-lo ao conceito de "clinâmen" ou a declinação mínima que efetua a passagem entre essas duas fases, agindo como operador mínimo da transformação em geral. Deste modo, diríamos que se a existência do mundo é o deslocamento do equilíbrio, quando esse desvio é nulo, não há nascimento. Entretanto, se ele  é mínimo, a voluta se inicia e o objeto se constrói,foge para frente, desenvolve-se e desdobra-se, onde nascer, existir e morrer são apenas variações dessa dinâmica fundamental da transformação dos corpos através das ressonâncias. A partir daí nasce o tempo e a extensão da matéria; a vida dos homens, trabalhos, batalhas, rivalidades, honras, trevas, seus movimentos e sua curta história. Esse movimento de individuação, passagem para o mundo das fases, só é possível ser pensado a partir de um elemento meta-estável como operador dessa passagem e potência de disparação, onde a diferença existente entre as singularidades dos sistemas integrados age como energia potencial, diferença de potencial que desencadeia as ressonâncias  como um motor em si mesmo de onde se desfiam traços diagramáticos por onde trafegam as repartições de potenciais em forma de singularidades discretas, ainda não individuadas, mas tidas como puras tendências, que serão combinadas e comunicadas como informações de um sistema que passa a se bifurcar nos diversos níveis do mundo, da matéria e da vida. Diferente do equilíbrio absoluto, o equilíbrio meta-estável se caracteriza por um estado de homeoestase onde as energias potenciais assumem um valor máximo mas mesmo assim o sistema está em equilíbrio estável dado o movimento de rotação muito rápido das forças de tensão. Essas forças não agem nem sofrem ação recíproca, mas se movimentam livremente carregadas de toda sua potência até que pela supersaturação desse estado homogêneo acontece a passagem para a os estados individuados das ressonâncias onde todas as partes do sistema passam a sofrer a ação de todas as outras partes, não havendo mais forças livres, mas apenas as forças relacionadas nas formas da matéria e da vida. O nascimento do mundo seria então o milagre do desvio de um equilíbrio homeostático pré-individual para um sistema onde as diversas formas que as energias em circulação assumem e relacionam-se nos ciclos homeorréticos da matéria e da vida. O caos original, ao invés de se constituir por choques  e encontros aleatórios no espaço vazio e infinito, se apresenta como a coexistência de forças livres em uma circulação onde os as potências não se relacionam, se chocam ou se encontram. A atualização da circulação de forças é como uma diferencial e mudança de sentido, diferença infinitesimal que gera o sentido a partir de um feixe de paralelas em um campo uniforme, dando origem aos vetores no campo espacial da extensão.

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Quando pensamos a sobremodernidade como a era onde a capacidade de virtualização das formas da matéria e da vida, esbarramos no mote que que acompanha o existir dos seres da linguagem, atônitos pela transitoriedade do movimento do mundo que invade seus sentidos, cuja sua vida é o principal exemplo. O esforço sobremoderno embora se assemelhe as demais tentativas de restituir a ordem e o equilíbrio a uma realidade marcada pelo fluxo das constantes transformações do devir, vem diferir delas na medida em que é o excesso de multiplicidade e de devir que levará esta tarefa adiante. Na perspectiva dessa multiplicidade, os dispositivos de criação e equilíbrio da ordem sobremoderna trabalham através do escoamento do devir  em uma distribuição fragmentária. A partir da criação de diversos mundos possíveis que se intercomunicam através de conexões cada vez mais velozes e significações cada vez mais voláteis, o princípio da mobilidade desse fluxo, que se distribui através de ressonâncias múltiplas, consiste na possibilidade de multiplicação da diferença de maneira ilimitadao. Segundo as idéias da mecânica clássica, não existe sistema que esteja subtraído a toda e qualquer ação externa; todas as partes do universo sofrem, com maior ou menor intensidade, a ação de todas as outras partes. Assim, não existiria força livre ou fora do alcance das ressonâncias, uma vez que os sistemas dinâmicos se constituiriam como um conjunto de forças relacionadas. Contudo, se imaginamos que a multiplicação das ressonâncias através de um fluxo em alta velocidade é viabilizado pelo tráfego nas redes informacionais de escoamento do devir, composto de uma pluralidade de forças irredutíveis em luta, essa multiplicação se processaria num campo de espaços inextensos em um tempo infinitesimal onde o aumento da velocidade das trocas e a redução dos espaços e do tempo criam diferenças de intensidade através da multiplicação da potência de uma força cuja a ação instantânea a libera para uma nova ação, transformando-a em força não relacionada, livre e, portanto, excedente. Este excedente é redistribuído sem que entre em uma nova relação de forças, mas assumindo a função de potência criadora que reconstitui os recursos, as reservas energéticas e os dispositivos geradores de atos.


As forças, então, escapam do controle da definição que visa adequar os objetos da percepção ao conjunto limitado de significados. Elas estarão sem livres para exercerem sua potência múltipla, num ritornelo, onde a linguagem deverá transformar-se em uma glossolália, onde o falante se torna incapaz de repetir os enunciados já pronunciados no seu gaguejar de palavras frouxas. O jogo entre o significante e o significado passa a encarar a lacuna designante como um silêncio onde sobram apenas murmúrios e ais, deixando a equivocidade o levar alhures, sem que se precise negar ou adequar. Descubrir o múltipo em cada abertura, novas possibilidades em cada relação de forças, que se desmancham antes que se consiga defini-las, escorrendo entre os códigos dos enunciados. Os códigos rizomáticos da sobremodernidade são justamente esse emaranhado circulante onde não se pode mais definir partidas ou chegadas, mas onde cada desfiar de sua trama traz consigo um nó de tendências."Quais seriam as forças em jogo, com as quais as forças do homem entrariam em relação? Não seria mais a elevação ao infinito, nem a finitude, mas um finito-ilimitado, se dermos esse nome a toda situação de força em que o número finito de componentes produz uma diversidade ilimitada de combinações" (Gilles Deleuze). Esse é o discurso da sobremoderniodade. Os vacúolos de não-comunicação sobremodernos põe o falante diante dos signos vazios, ou melhor, dos impetrativos que deles emanam, como um complexo de tendências, para além daquilo que ele designa em cada objeto que invade os sentidos, na sensação desses encontros e nó de tendências que está além das designações dos significados e onde a impossibilidade de aprisionar aquilo que emana dos signos, em uma identidade entre o observador e o objeto, libera potências impossíveis de serem descritas pelos estoques unificadores da memória. Diria, que liberta o falante do signo e o leva ao esquecimento. Nesta galeria neutra e mista, o passante ou passador, subitamente tornado neutro, misturará em si as naturezas, as línguas, os gestos, até neles se dissolver e perder. Se a sua vida o fez errar em muitos braços de mar, o seu corpo e o seu espírito terão aprendido e misturado tanta diversidade ao ponto de alcançar, em si e sobre si, a brancura imaculada do próprio lugar de onde se possa dizer seu. Discutiu-se muito a aparente apatia da geração pós-ideologias e hoje se começa a ter noção que a aparente apatia, ou neutralidade é justamente a maior potência da atual geração. A falta de identidade e a assunção de uma multiplicidade transitiva, a todo instante, é o movimento que tem conduzido essa geração para uma nova forma de lidar com o devir, justamente pelo excesso de devir. A entrada dos dados, ao alimentarem as máquinas de processamento, não permite mais que se preveja o resultado, pois a saída pode se comportar imprevisivelmente, oscilando uma série de vezes, uma vez que não encontram-se totalmente ligados numa relação mutua fixa, onde cada ação possa determinar uma reação linear específica.

Se através do percursor sombrio, as potências declinam minimamente até tocarem-se em um espaço e tempo infinitezimal e produzirem as formas do mundo, é através dos movimentos acelerados dos conteúdos circulantes que se decompõe as formas em potências não relacionadas lançando-as de volta ao estado meta-estável, onde a unidade dos conteúdos conectados em rede, assume o caráter de pura multiplicidade e indeterminação de forças não relacionadas, isoladas uma das outras pela fragmentação rizomática do espaço da rede. Neste não-lugar, o multipertencimento dos ocnteúdos alterados instantaneamente pela ação contínua dos enunciados das formas de expressão, estabelece um jogo, cuja dinâmica conta com a ação das potências infinitamente multiplicadas. Essas frequências se distribuem a partir de um espaçamento, no qual a multiplicidade das partículas intinitesimais que constituem os conteúdos e suas relações constituem um espaço unidimensional meta-estável. A fala perde, então, o suporte em pontos fixos do espaço da representação e ao invés de remeter os sujeitos a objetos em um campo delimitado de significados fixos, oscila como frequência livre de uma absoluta diferença, isolada na teia da rede, conectada a todos os conteúdos mas reivindicando sua singularidade, uma vez que o funcionamento de uma rede não dispõe os conteúdos de uma forma sistêmcia e, portanto, atravessa a distinção usual entre palavras e coisas,  lançando os conteúdos e as expressões num movimento fractal cada vez mais rápido no ciberespaço. Assim a diferença surge pelo excesso de conteúdos circulantes, liberando um potencial excedente que se desloca continuamente e criando, exponencialmente,  ilimitadas possibilidades, diluindo as formas do mundo em rastros de passagem dos conteúdos, onde sobram apenas o seu eco; intensidade que vibra e que se afirma como tonalidade de um silêncio eterno dos vacúolos de solidão.

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terça-feira, 9 de agosto de 2011

Open Sky

 

Chuva

Sky, most of time is put as synonymous for infinity. His unlimited frame and absence of borders contrasts with a space occupied for all extents and material things differenced through sensitive experience. Colors and forms extended above our heads are just limited through the horizon line that apparently rounding ourselves alongside  a space occupied for the material objects superposed. As a fold that distinguishes the volume of figures fixed by  our view, horizon appear as the last limit of  sensitive perception. Beyond this line we have only the chaos of possibilities itself  dependent on the abstraction that creates a plan to project the forms of our thought . Our senses are not able to acquire each form  unless the abstraction fixes the world apprehended by the perception, creating a support for the thought and for each thing represented by it. If  abstracted forms support the thought it is the language that supports  abstracted forms. The world acquired by the sensitive experience, represented by the thought and described by the language come to us in order to make us  able to separate what is observed from the point of observation where the subject is and where each possibility  could be switch flipped into the world of forms. This is the plane where the act of knowing tends to coincide with the act that generates the reality, and we can call it plan of reference. A space where are constituted the limits or borders in which the subject confronts the chaos of all the possibilities as a plurality of worlds that emerges from a continuum state of flux. This is the plane from where  the differences between the contents rises and allows the subject to say the object. The differences appear when the subject itself overcame the contents where it is mixed itself and the excitation generated by this movement is connected in a chain of synthesis that constitutes the process of the knowledge.  If we intend to get back to the potential that underlines each content into the process of the knowledge we will face the abstraction as the first point where everything comes from and enter into the existence defining the reality of each content that appears for the subject of the abstraction. Everything we perceive, we experience and think. From that point comes the distinction between inside and outside, subject and world.

Abstraction creates measures for view and for description of what comes in a sequence of events in time and space, regulating this sequence  and addressing things in a continuo movement where one content is related to another. If we want to reach the pure duration of the events outside the limit of time and space we have to refuse to use the abstraction as a tool for the thought. How could we be able to overcame the abstraction? The answer should be beyond  the last limit of each image of thought where we find a  pure dynamism that refuses determinacy and escapes from  traditional categories of the abstracted thinking an the language as the support to the abstraction. The problem must drive us to a language that is free for operate the trip to a place of the pure dynamism, a place where thought is formed without  fix forms of the abstraction and where we are able to hear the sounds of the silence, absences and gaps, where we can be directly in touch with the force of the virtual. Would be better if we already could define at this moment the concept of virtual pushing the sentences too far and ahead the limits of the language of the abstraction, recovering the potential lying under the words which is out of the field of actualization and escapes all measure because it is in a continuos and unstoppable movement that only acquire forms of the abstraction through a slowing down that produces the deferences throughout we can say the world apprehended by the perception. Out of this process we find an operation that doesn't imply any point of departure or arrival because it stops up the breaches of deference and repetition and produces a time taken as a whole, which leaps over the rupture of the repetitive present and open a space without extension only populated for the intensive multiplicities. Enter into this universe require  specials warners if we don't intent to fall down into a empty hole of  a complete absence of meaning taking account that we start sailing a river that is a mixed liquid that one may never stop shaking as originally described by Heraclitus. If we overcome the abstraction as the last limit of the reality we enter in a dimension that could be considered unthinkable and indescribable at first sight, unless we submerge under a river without surface, bottom or bank in a series of "nonplaces" where language escapes and where is constituted the ensemble of the actual and the virtual.

To mark the path where we could have the contrast between the actual and the virtual as a requirement to a non abstracted thinking we should turn back to Nietzsche and to his critique of the history and the importance of the memory as a tool that fixes the present and creates a field where time is archived as solution of thinking continuity,  organizing  the past and the future that evade the present, transforming the movement of life into material extensibility. The definition of nature as posited by Nietzsche to describe the feeling of seeing the herds grazing that don't know what yesterday or today is. They spring around, eat, rest, digest, jump up again, and so from morning to night and from day to day with its likes and dislikes closely tied to the peg of the moment, and thus neither melancholy nor weary. At the same time we could turn to the definition of freedom in Spinoza where a thing is said free when it exists by the necessity of his nature and when in itself is determined to act. In that view a thing necessarily exists if there is nothing constrained its. He says that the potentiality of existence is a power and the non-existence is a negation of power. Thus he is not talking about the autonomous will of the subject but the inhuman power for life. I call this "discipline of being". Neither categorical nor hypothetical, I think the imperative impulse as natural. Everything is natural if we consider the nature as a set of forces in a constant relationship, what Nietzsche calls the forces of power or "quantum", as well as particle physicists. Forces that form and sustain everything that exists. Forces that do not be constrained  because  following shifting, changing and trying to find a space for expression. Forces generating forms, dense matter and matter invisible to the eye, organic and inorganic, forms of content and forms of expression, bodies, instincts or thoughts, energy that keep things acting to be. According Nietzsche, "when something happens to this or that way and not otherwise, is not the consequence of a principle of a law or order but it shows how forces are at work and how they exercise power over other forces (...) A quantum of force is defined by action that  it produces and by the effect that it  resists".

Everything that exists  comes down as an interactive process of forces. We call these forces, then, forces of nature, once we consider nature as the essence of all things that exist and through his nature exists this or that way and not another. Each thing carries the power of existence in a specific way and that continue to act  even when face a  power from anything else, when any other power to intervene and prevent it runs its course. Power of the rain falling and that stop falling  when the earth appear as the power that moves and makes it run in a riverbed until the power of the sun starts evaporating it and makes an encounter with the power of the cold that condenses and makes a cloud. The power of sexual excitement of a body with another body that keeps you excited tan changes this excitement by the explosion of an orgasm that makes the power shedding in semen which flows to find the strength of an egg that prevents it from continuing running as semen through fertilization that releases the egg which grasps the power of the meiotic process that makes it multiply in ever larger units of life. Everything is power and  forms of the world that appear as a relationship between them. The power of observing and describing this process is a state of the beings of language self called rational animals, which consider the forms of the world and organize the space making these forms take on particular significance in the chain of its relationship with the world. The ability of getting the contents that rise into the sensitive perception and through the cognitive syntheses creates the boundaries between the dimensions of interior, exterior, height, width and depth, separating contents into the time and space and then cataloging its forms and recording it in its memory. It makes the rational animal  reproduces it by the names that define their differences until they reach a critical difference that separates it from everything else. Then the beings from memory  construct a particular world through the language and this world is compound of living and inanimate objects that by the taxonomy of the contents of nature this world towers over everyone as a sort of privileged habitat for beings.

This  being, thus fully differentiated from other beings but unable to understand how it got there, becomes  being-man and it starts looking for something that exceeds in power the various powers in nature to help him to rule over them. As the flow of power in nature is impermanent, considering the action of the various quantum forces that produce and resist against these actions, man tries to find  absolute power that does not changes its essence itself and because of this prevails over all others and that way establish a limit between the mutable and the unchangeable, the impermanent and permantente, since his life seems to protect him from  the avalanche of  transitoriness that threaten return it to the undifferentiated state from which sprang to establish itself as observer through the ability to retain the present moment in his memory and turns them in history. Out of this history from where the being is told by himself man and figures mixed with other beings, we cross the limits established to describe the process of forces at work by meanings from a language that express original causes and final effects for the highest heaven over his head or into the recesses of the pit under his feet. These limits were established by various representations throughout human history and always protected the beings of language from the threat of lightheadedness that would dissolve him back into nature as a power along with the other, without history, memory or consciousness of the process of being in the world.

However, If we intend to represent the field of forces in its intensive relation, out of the ordinary sense of the dense matter occupying a extensible dimension, we have to deal with essences that could not be confused with  the space of extension where the forms lie at, but a space of multiplicity of powers in as infinite movement. In this plane, thinking consists in a deterritorialization of all forms of classical unity of the dense matter to a multiplicity of singularities and lines in perpetual variation. Multiplicity is a infinite movement of powers into a chaos of coexistence  and its essence is a frequency as vibration of power. The world of existence appears to us when the powers tend to take leave of chaos, abandon the delicacy in favor of regularity and predictability that provokes a crystallization, tracing vectors between chaos and thought. If we intend to encounter chaos in a pure and untrammeled state as multiplicity of powers in a infinite movement, we have to cross the limit of the forms through a thinking that is able to enter in the infinite variability, moving itself at infinite speeds of chaotic forces. The dense matter that occupy the extent space arises  from chaos as a relation of forces compounding the fix forms. If chaos consists in a ceaselessly modulation field of differences,  the acceleration and stops of these related powers,  distributes the intensities and reduce the difference to identity. The actualization processes moves from the proliferation of differences to their reduction and is given as the equalization of difference. Difference in this sense is the absolutely different, undetermined forces in an infinite flux having the difference itself as its condition and this movement is the coexistence of different rhythms as a generative force. Its  different rhythms could be referred in a potential energy as the fundamental element of a integrated state, where the instability of this flux is directly related to the power and its activity. The more  a state is far from equilibrium the more is the potential energy or the free energy in its flux. Free energy is an infinite movement of powers in a state of absolute difference. The state far from equilibrium also can be described as a repetition of this absolute difference as an unpredictable stream of effective new.  The state far from equilibrium is the dimension of the virtual that is a movement of forces or tendencies in its absolute process of difference. The virtual is the pure difference , the new, absolute different that repeats itself as unpredictable stream of effective new, doing each time as the first, in a series that is always able to differ from itself. This is what Nietzsche used to call "eternal return". The return of the new and the absolute different. Matter as a form appear when this series of divergent forces result in a form as product of a difference, correlated  frequencies with  an appetite for novelty  that extends the play of difference within a field of actualization.

The reality perceived by the human sense could be thought as a intensive flux from nowhere to no place itself in a movement that can’t be describe in terms of a geometric spatial trajectory but only in a field where frequencies enter in a different type of relation. Frequency is a way as the forces are tensioned  and expressed in terms of vibrations. There are two types of relation for frequencies. One produces integrated systems, where dos not exist  a interaction of bodies or particles and an other that  produces a non integrated system, where a interaction of bodies is given by resonances. The correlation of frequencies proceeds by minimizing variation and tends to confine the forces into the matter to increasingly narrower cycles of becoming, resulting in a surplus code, matter flow or matter-movement, in a sedimentation process that leads to a difference of degrees of a non integrated system. At this point we could define the actual as a process of stratification of a self-organized system. At he end of XIX, Henri Poincaré demonstrated the fundamental difference between integrated and non integrated  systems. He showed that the most of dynamic systems were non integrated. An integrated dynamic system is  said as a system where the variables could be define in a way that  forces are free and the behave of this system itself becomes isomorphic. He demonstrated that only a reduced classes of dynamic system were integrated and that this integration is threatened by the existence of resonances between grades of freedom in a system. Resonance could be said as a relation between frequencies and it is produced when one of the frequencies is equivalent to a entire multiple of another. Integrated system could be represented as being constituted by bodies without interaction, in a field of a qualitative pure movement of differences. The dimension of tensions and vibrations that expands themselves as a infinite movement of a pure difference is the dimension of virtual. In the other hand, non integrated systems represent a field where collision of forces makes  a distribution of differences speeds more symmetric and creates correlation the forces into a correlated flux that reduce the pure difference, or the difference of kind, to difference of degrees of energy. The light emitted and absorbed, the coupling of sounds and quantum of energy, are the results at differences between two levels of energy as the limit of  expansion and pure duration of the virtual. The least contracted point as a frequency that runs to a most contracted, interactions as the way as the differences of intensities are communicated into a space of extension. Thus the matter is a space of the contraction of vibrations in a point of chocks of energies quantum that determine the field of actual individuation. Until this point its not requested any other element out of a full multiplicity that assume a spectrum of a monism of a integrated system. The infinite movement is a eternal return of an absolute difference as  duration that is expansion of forces, energies, powers or frequencies. However the main question is given in that point. How the resonances take place in the process from the virtual to actual field?

Backing to the pre-socratics thought we find that an element introduced as responsible for the passage from the virtual to the actual dimension. They used to define this element as  "clinâmen" . According to Lucretius  it is the unpredictable swerve that occurs "at no fixed place or time": The first atomists used to say that when atoms move straight down through the void by their own weight, they deflect a bit in space at a quite uncertain time and in uncertain places, just enough that you could say that their motion has changed. But if they were not in the habit of swerving, they would all fall straight down through the depths of the void, like drops of rain, and no collision would occur, nor would any blow be produced among the atoms. In that case, nature would never have produced anything. According to the first atomists, the global nature is formed by the set of atoms in a static and entropic isomorphic, in the sense that would mean death. Things would be statics in a perpetual flow. Thus the atoms would be immortal and would be in free fall, without touch itself and in a parallel flow of a stream equivalent to the principle of inertia. The "clinâmen" would be the slope in the inert atomic chain as a driving force or minimum angle that produces shocks and twists in the time and space of the dynamic. In this sense the original state of things describes by the atomists is closer to the integrated system describe by Poincaré and the "clinamên" is closer  to the resonances. Therefore, the isomorphism of the integrated system is the state of coexistence of a multiplicity of quantum in a static movement in a virtual field of a eternal silence of the infinite spaces. When this silence is broke, the actual world of the correlated forces appear and brings together the life. For the fundamental states of matter, atom and void, tact is the condition of possibility of experience. The world,  objects, bodies and even the soul are part of a decline from a integrated system. The nature declined exactly when it was born and it will continue to decline back to death that is the integrated and isomorphic state of non interacted quantum of immortal energy, that is immortal only because it wasn't born yet. The process of the reality is a relation of forces in its resonances, going down in a process of existence, in chocks and interaction with other forcers.

The question is: What makes a force to insist, persist, hammering, even when other force opposed? We would say that persistence is the nature of the force that causes it and tends to something without being able to release this particular action. If we consider that every form is a relation of forces and the whole body is the last limit of unit forms, we would say that certain bodies, on trend, they insist on something because of their own nature, without any other force is able to stop it but exterminating it. It seems something easily observable that the nature of things carries, in itself, the power of continuity, but the relationship between these powers in the formation of the many things. At the end of the day it  is the point that must be considered here. When is said that the infinite movement  is compound for the virtual and the actual, even so we can't  explain why  is processed the passage between these two dimensions. What makes things to be is here an engine. A producer of motion, a force which no one knows. How to avoid the producer's output, and so on? How to stop the leak source? How to avoid a first mover transcendent, outside the world of nature as separated element. Transcendence has helped man in his task of building human societies through different conceptions of it.  If the transcendent in some groups remains in traditional garb in others it takes on a supposedly more appropriate criteria of rationality, however it presents itself as an element separate from the flow of nature, able to give humans a stable world, known and secure guaranteed the necessary order of the group or the conservation of the species. Once again, in search of the order of the natural processes by streamlining the human species set out in search of best practices aimed at ensuring its survival, even in codes that are intended to regulate the conduct, establishing ethical and legal principles that define acceptable behavior and subscribe it to moral and legal requirements governing each human group. The will to power or the power to exist, is regulated by an institutionalized power devices in the various spheres of the social group, taming the instincts and subjecting the natural and inhuman power to the test of an ideal utilitarian conservation of the species. Would be fine if we could overcome  the sovereignty of subject and its regulatory process to acquire the internal dynamic that assure the material reality of both subject and object, subverting the regulatory-discursive stratum of power. Sometimes the risk of being out of this stratum comes from the habit of build new spaces in the ordinary sense of a oriented topology that only substitutes a stratum for another one, providing another privileged shelter for the sovereignty of consciousness. The attempt to achieve a horizon of an open sky must lead us to plane where the obstacles are removed, spaces cleared, edges smoothed and resistance reduced, reconstituting the plan of the virtual integrated field.

In that point we would like to invoke the changes processed in the time of high speed technology and called by us super-modernity, as a tool that virtualized the bodies and liberated lines of scape of a discontinuous time and a non extensible space that must not be thought in terms of geometric plane of succession but in a moving of non relational forces. If the virtual plane is a pure duration of the difference, and the pure duration is a integrated field of forces in infinite movement, the possibility to reach the forces out of the resonances of entire multiples, in a zone of indistinction of a vanishing horizon, where places disappears in the geographic annihilation of distances and revels us the void of a timelessness and an open sky.

 

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A Luz do Cabaré e o Fim do Tango na Vitrola - Sem Choros ou Lamentos

Metaestável

Trilhos

Em Camadas

Através da tarefa de observar os espaços de circulação do  mundo sobremoderno, penso sobre um tema que tem ocupado meu discurso ao longo deste últimos meses: a diferença entre ordem e disciplina. Passando por territórios onde os conteúdos circulantes se esbarram e abrem espaços de significação distintos e tendo como mote da observação a procura pela diferença excedente como fundamento dos atuais processos de virtualização , voltamos a prática de pensar por dualismos, herança que insistimos em não abrir mão. Em trânsito e longe das referências catalogadas em acervos tácteis  atualizados no tempo linear e no espaço extenso do livro, sobra-nos  os (não) lugares virtuais que se nos abrem em um "click". Logo na primeira linha da pesquisa no ciberespaço, surge uma definição para disciplina, que garimpada, parece-nos servir como partida. Diz assim:

"Disciplina pode ser entendida como o esforço para tornar-nos aptos a não nos desviarmos de uma conduta  desejável para o bem comum , mesmo em situações de pressão extrema".

Embora o comum significado  etimológico da palavra disciplina pareça apontar para um conjunto de regulamentos destinados a manter a boa ordem, gostaria de destacar uma diferença que se abre ao nosso entendimento através de exemplos retirados do nosso cotidiano e que podem ser expandidos a uma dimensão ontológica do ser. Segundo Spinoza, ‎"diz-se livre a coisa que existe exclusivamente pela necessidade de sua natureza e que por si só é determinada a agir. E diz-se necessária, ou melhor, coagida, aquela coisa que é determinada por outra a existir e a operar de maneira definida e determinada" (Spinoza - Ética).

Considerando que este bem comum inclui o sujeito da disciplina, em seu processo de atualização no mundo, poderíamos afirmar que a a disciplina conduz  o sujeito da ação na afirmação de sua natureza, e de seus conteúdos desejantes, a despeito das ameaças que, vez por outra, insistem em colocar em cheque esta atualização, exercendo, assim, sua liberdade. As ameaças multiplicam-se por todos os lados e apresentam-se como risco de limitar a plena atualização do sujeito desejante. Seria, então, através da disciplina que ele estaria livre das ameaças e apto a não se desviar do objeto último de sua conduta e da afirmação de suas potências. Logo de saída, devemos nos libertar a errônea interpretação de disciplina como uma imposição externa de um agente ou conjunto de agentes que a requer como algo desejável. Na verdade, a disciplina pode ser vista como um esforço de auto realização, na medida em que  garante o sucesso da ação do sujeito disciplinado. Neste ponto, faz-se necessário introduzirmos o segundo conceito da nossa abordagem dual, uma vez que ele diz respeito ao espaço onde o sujeito da ação é lançado e o ritmo  que se imprime nessa jornada, saber: o espaço do caos. Minhas últimas andanças ao redor do globo me trouxeram a dimensão dessa diferença ao comparar determinados espaços sociais e perceber como eles definem os traços distintivos de cada um dos conceitos. Sem querer aprofundar a análise social desses espaços urbanos e dos processos que os levaram aos atuais estágios de suas configurações, fiquemos como as marcas que os caracterizam sob o prisma da nossa abordagem, onde a ordem surgiria então como o conjunto de limites que se fixam entre e ao redor das conexões caóticas de um fluxo que se expande numa variação contínua, enquanto a disciplina é a força de atualização de terminada natureza, que por si só é determinada a agir.

Caminhando pelas ruas de Berlin constatamos que o território da cidade alemã está marcado pela falta de ordem. Do cacos de garrafas quebradas nas esquinas e ao longo dos trilhos do metrô, rastros de uma passagem contínua de vida, seguindo as calorosas discussões presenciadas no espaço público, quando as forças entram em choque e chegando ao vai-e-vem das pessoas que circulam na cidade, vinte e quatro horas por dia, nos deparamos com a potência de um espaço caótico cuja a força vital o tem empurrado  ao posto de uma das mais dinâmicas e pulsantes cidades da Europa. Contudo, as estações de metrô da cidade não possuem roletas. Os bilhetes são comprados em máquinas de auto-atendimento e validados para aquele dia de jornada, sem que o mesmo seja solicitado ao usuário, que não encontra nenhuma obliteração ao seu acesso, a não ser o seu próprio esforço para não se desviar de uma conduta desejável para o bem comum. A partir daí, diríamos, então, que em Berlin falta ordem e sobra disciplina. Instantaneamente somos remetidos a nossa cidade natal, cantada aos quatro ventos como maravilhosa, mas ao mesmo tempo reconhecida em versos como "purgatório da beleza e do caos". Da desordem da ocupação do seu espaço urbano, ao desalinhamento do seu relevo, o Rio de Janeiro transborda a mesma potência da cidade alemã, talvez com a diferença trazida pelas diversas cores que rasgam a cidade de cima a baixo, oposto do tom pastel que predomina no território germânico. Observando o emaranhado de barracas coloridas e pontos negros que inundam a areia de suas principais praias em dias de sol, temos uma fotografia do coração de uma cidade onde as relações entre seus habitantes se processam na leveza e na velocidade dos contatos que dificultam a criação de vínculos. Ao mesmo tempo, a convivência é dificultada por um comportamento que prima pela exploração máxima desse potencial e leva os indivíduos a práticas solitárias que, na maiorias das vezes se contrapõem, sem que haja uma mediação capaz de leva-la a bom termo. Pedestres esquivando-se de carros em faixas que não passam de sinais decorativos,  sintetizam a luta individual de cada sujeito pelo melhor espaço da ação, que os leva ao impasse da dissolução de qualquer coexistência e faz-nos constatar que no Rio falta tanto ordem quanto disciplina. Como antípoda da cidade brasileira colocaríamos  o Emirado Árabe de Dubai. Suas vazias ruas, impecavelmente limpas e margeadas pelos floridos e exuberantes canteiros de flores ao longo dos jardins que circundam a cidade, mantidos artificialmente sob o sol torturante do deserto, são combinadas com o vai e vem ordenados dos carros em suas vias de perfeito pavimento. A ação é norteada pelo esforço que regula a conduta e que desemboca na coexistência de indivíduos que exploram, ao máximo, o bem comum de um espaço social harmônico. Nessa perspectiva, em Dubai sobra ordem e disciplina.

Imediatamente temos a impressão de estarmos introduzindo uma reflexão ética que poderia desembocar em questões que permeiam o comportamento dos indivíduos no meio social. Contudo seguindo a argumentação spinozista contida na sua "Ética", apelamos para significados que situam a reflexão para além dos códigos de conduta dos indivíduos humanos e nos remetem à ação recíproca entre "formas de conteúdo e formas de expressão", nos movimentos de "territorialização e desterritorialização", das estruturas biológicas, geológicas e sociais, a fim de encontrar-mos os princípios ontológicos de diferenciação constitutivos do processo de emergência do mundo sobremoderno,

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Azul em Fuga

Entre as Mãos de Fumaça

Comecemos distinguindo os processos de subjetivação e objetivação descritos por Deleuze em três sínteses, fundamentais para evoluirmos através de uma argumentação que busca relacionar as forças constitutivas do ser-no-mundo. A primeira dela, chamado por ele de "síntese do eu contraente", se processa de forma passiva, através das sensações do sujeito e imprime em sua alma as excitações provenientes do seu confronto com as forças da natureza, o mundo que entra pelos sentidos, num esquema de ação e reação. A luz que entra pelos olhos, dilata as pupilas e forma as imagens na retina é um bom exemplo para entendermos esta primeira síntese. A segunda síntese é chamada por Deleuze de "síntese  ativa da memória", sendo o processo de fixação que retêm a experiência em registros de blocos de sensações, criando a dimensão espaço-temporal do presente, passado e futuro. A terceira e última síntese e descrita pelo filósofo francês como "síntese do juízo", por intermédio da qual o pensamento elabora os critérios de diferenciação entre o sujeito e o objeto, entre o indivíduo e o mundo, entre a natureza interna e externa ao ser. Seguindo o exemplo do olho e da luminosidade, diríamos que através dos sentidos o olho contrai a realidade da luz, fixa as dimensões temporais através da memória que retêm essa sensação e cria, através do juízo uma separação que coloca o olho do lado do sujeito e a luz do lado do objeto. A partir daí podemos descrever o processo  de constituição e atualização da vida e do mundo. Lembrando que para isso precisamos trabalhar com a categoria de diferenciação entre o conceito de virtual e atual, onde por virtualidade entendemos o conjunto de todas as possibilidade que coexistem simultaneamente na dimensão pré-individual e meta-estável e por atualidade o processo de individuação que se dá na dimensão das três sínteses e que constitui a dimensão da realidade onde as forças da natureza interna e externa dos sujeito se relacionam no campo social produzindo as relações necessárias entre os objetos através de "máquinas produtoras de significados" e por intermédio da ação recíproca das formas de conteúdo e das formas de expressão.

Para entendermos a dimensão ontológica da diferença entre os conceitos de disciplina e ordem, faz-se necessário que os relacionemos aos processos de atualização na ordem social, onde os agenciamentos individuais e coletivos se processam na dimensão do embate das forças que irão constituir as formas do mundo dos homens e onde as conexões manifestam a soma de diferenças de potencial. Teremos, contudo, que busca-la (a dimensão ontológica) nos processos virtuais dos fluxos imateriais, pré-individuais e meta-estáveis do antes-de-ser, fora da dimensão do espaço extenso e do tempo como sucessão e para além da estabilização das contínuas variações do conjunto de possibilidades que coexistem diferencialmente até que os processos se atualizem através dos acontecimentos que fixarão os princípios orgânicos e inorgânicos, em cada uma de suas dimensões individuadas. Este conjunto de possibilidades coexistentes referem-se a capacidade de transformações criativas como um movimento que assume a condição da renovação contínua de mudanças qualitativas, onde cada elemento se transforma sem que mude sua natureza, a partir de uma auto-motividade que independe de qualquer outro fator que determine o seu agir, que não o seu elemento natural constitutivo, que podemos chamar de disciplina de  ser. Tal dimensão  compreende todas as singularidades, mônadas ou mundos incompossíveis que existem por si e para si, sustentando intensivas multiplicidades em contínuo movimento que se referem a um latente e não atualizado estado de coisas.  Diferenciação que acaba lançando as multiplicidades no domínio da individuação,  através da diferença de velocidade dos fluxos que marcam o ponto de passagem onde a inflexão de cada combinação potencial abre-se como energia atualizada que se constitui em  objetos da experiência humana, quer seja uma visão, uma lembrança, uma palavra,  uma proposição geométrica, ou tudo aquilo fora do sujeito que é por ele referido. A questão aqui é que, para encontrarmos a dimensão ontológica a que nos propomos, precisamos colocar em suspenso, mesmo que de forma temporária, algumas das noções que, naturalmente tomamos como axiomas ou pontos de partidas para a construção do pensamento lógico, tarefa tão cara a ciência moderna, como por exemplo a noção de espaço extenso, lugar onde se mensura a posição relativa de corpos rígidos, extensos ou materiais, assumindo a premissa de que matéria significaria qualquer coisa que possua massa, sendo considerado, portanto um corpo rígido que ocupa lugar nesse espaço mensurável geometricamente, ao qual chamamos extensão. Desta forma, os eventos materiais seriam toda a descrição do lugar (ou posição) onde ocorreu um evento ou onde se encontra um objeto a partir da indicação do ponto de um corpo rígido com o qual aquele evento coincide. Adicionalmente, pode-se substituir os lugares pontuados sobre os corpos rígidos através do emprego de sistemas de coordenadas, através de símbolos que indicam as medidas de posição. Todo esse sistema de abstração tem como o objetivo viabilizar a descrição dos fenômenos materiais aos quais os sentidos tem acesso, através das sínteses do processo de subjetivação.

Porém, quando passamos às singularidades pré-indivinuais e inextensas,  na dimensão da virtualidade, precisamos aproximar-nos delas a partir do conceito de intensidades, refirindo-nas a partir de sua diferença qualitativa, para que não nos percamos no infinito conjunto de forças coexistentes, sem que se consiga distinguir os conteúdos circulantes na superposição de cada estado de coisas e sua discreta diferença que nos permite sair do campo da completa indeterminação. Para pensar-mos tal estado de coisas e uma vez que o pensamento encontra-se no reino da atualização, através da síntese do juízo. Um caminho a seguir, surge com a apropriação deleuzeana do conceito de intuição de Bergson, como um método que permite-nos alcançar as diferenças discretas da duração das intensidades no campo do virtual. Nossa tarefa é facilitada a partir das relações estabelecidas na sobremodernidade, era das velozes trocas dos conteúdos, onde a desmaterialização dos fluxos circulantes em uma rede global coloca os conteúdos numa constante fuga. Se apelarmos para os princípios que conduziram as revoluções processadas no final nos últimos dois séculos, em representações que vão da arte a ciência, verificamos que elas (as revoluções) inauguraram uma era onde a fuga de um ponto, espaço qualquer determinado pela extensão; a fuga de uma nota, local da vibração determinada pelo tom; a fuga de uma partícula subatômica, vibração de um quantum de energia, leva os conteúdos intensivos alhures e augures. Onde não subsiste a diferençação, já que não se pode falar em termos de qualquer atualização espaço temporal. Apenas as diferenças intensivas que nos remetem ao caldeirão de uma duração (in)extensa, (a)temporal, sem momento ou lugar, na pura duração do infinito. Daí ser a intuição o instrumento de acesso a esta dimensão de forças ressonantes, potência virtual não mais localizável ou mensurável nos termos e categorias da clássica noção de espaço e de tempo. É através da intuição que o nosso entendimento nos lança no campo intensivo das estruturas dissipativas, onde as oscilações de frações de segundos virtualiza o campo de ação dos indivíduos, não mais localizável do espaço extenso e não mais mensurável no tempo da sucessão. A instantaniedade do processamento das trocas lança a dimensão do atual num turbilhão de múltiplas possibilidade, onde cada singularidade se diferencia a partir da diferença de intensidade das forças ressonantes que compõe as várias formas.  O sujeito da ação passa a "dançar" uma música que nunca termina, pois na verdade ela sempre esteve ali. Mergulhado na dimensão  de todas as possibilidades o sujeito da ação,  quer orgânico ou não, em todas as instâncias do dinamismo que sustenta os movimentos dos corpos materiais, lança mão de ferramentas que volatizam os conteúdos, transformando-os em um arquivo que contrai o espaço e o tempo, na digitalização em bits e bytes. Tal dinâmica não está mais a mercê das categorias da física clássica, ou das formas de expressão que fixam os limites das figuras espaciais, uma vez que suprimiram-se os pontos de suporte das partidas e chegadas e os encontros passam a se dar num ciberespaço e nas linhas de comando do programa. Este mergulho no caos processa-se pela aceleração dos fluxos, que trafegam numa velocidade vertiginosa, onde os sentidos não são mais capazes de reter as imagens da paisagem ao redor, transformada em borrões que não diferenciam os limites das figuras. Sem sustentação no espaço e no tempo o ser assume, definitivamente, o seu elemento natural constitutivo que determina sua ação, por si só, não necessitando da coerção de nenhuma outra coisa, estando totalmente dependente de sua disciplina de ser. "Onde quer que você esteja, em Marte ou Eldorado, abra a janela e veja, o pulsar quase mudo, abraço de anos-luz, que nenhum sol aquece e o oco escuro esquece" (Augusto de Campos).