quarta-feira, 10 de outubro de 2012

De quem é o dinheiro afinal? - Parte II

Rizoma

Teoricamente, o padrão ouro funcionava a partir de um mecanismo apoiado no “modelo de fluxo de moedas metálicas”, cunhado por David Hume, no século XVIII e a partir do qual, toda vez que uma mercadoria era exportada, o exportador recebia um pagamento em ouro, que levava a casa da moeda para ser cunhado. Ao contrário, toda vez que um importador adquiria mercadorias do exterior, ele fazia o pagamento exportando outro. Segundo esse modelo teórico, os eventos autocorretivos eram responsáveis por gerar um equilíbrio monetário que dava conta dos déficits e superávits comerciais, já que um ajuste de preços compensava a diferença entre a circulação de moedas. Uma vez que determinado país apresentasse queda na quantidade de dinheiro em circulação interna, ele registrava uma queda nos preços e na medida que este contasse com mais dinheiro (moedas em ouro) em circulação no exterior,  os preços registravam uma elevação. Com o encarecimento das importações, os residentes no país reduziriam suas compras de produtos importados. Por outro lado, os estrangeiros, para que produtos importados teriam ficados mais baratos, tenderiam a comprar maiores quantidades de produtos importados. Haveria um crescimento nas exportações do país deficitário, e suas importações cairiam, até a eliminação do desequilíbrio comercial.

A medida que os mercados e as instituições financeiras começaram a forjar o fluxo de capitais internacionais através da emissão de dívidas que passaram a circular juntamente com as mercadorias, a simplicidade do mecanismo de ajuste proposto por Hume, passou a não mais dar conta do fluxo de capitais e aí, as taxas de juros assumiram uma importância que irá determinar o futuro do sistema monetário mundial. Administrar a complexidade desse fluxo requeria a figura de um agente central em cada país que desse conta de regular o nível de moeda e de dívida em circulação, e assim foram sendo constituídos os Bancos Centrais em cada um desses Estados Nacionais, que seriam responsáveis por promover os ajustes no “meio circulante”,  ofertando ou retirando moeda do mercado, dependendo da tendência observada nos meios de pagamento. O principal mecanismo utilizado pelos bancos centrais era a operação de “redesconto”, através da qual os bancos adiantavam dinheiro em troca de títulos apresentados pelos portadores, descontados os juros da transação. Desde que elegíveis, por uma série de condições estipuladas pelos bancos, o título poderia ser trocado por dinheiro, aumentando dessa forma a quantidade de moeda em circulação. Assim, toda vez que o Banco Central diminuísse a taxa de juros cobrada para redesconto do título, ele incentivaria a troca por parte de seus portadores. Ao contrário, se a taxa de redesconto fosse elevada ela inibiria a venda de títulos e diminuiria, consequentemente, a oferta monetária.

Tudo funcionaria muito bem se “as regras do jogo” estivessem claramente definidas e os interesses dos agentes e das autoridades monetárias se baseassem apenas na intenção de equilibrar o sistema monetário. Contudo, mesmo durante o período em que perdurou o padrão ouro verifica-se que as “regras” disponíveis foram várias vezes desrespeitadas e  desequilíbrios dos balanços de pagamento estabelecidos. Não esqueçamos que os bancos centrais eram, a princípio, instituições privadas e assim o nível da taxa de redesconto determinaria diretamente o seu lucro com a transação, o que  consequentemente influiria na política por ele adotada. Além disso, o surgimento de outras instituições bancárias que passaram a operar ao lado dos bancos centrais na venda e na recompra dos títulos, determinariam o nível da taxa de juros a ser praticado nas diversas operações de financiamento, o que iria definir o custo do serviço da dívida, não só dos cidadãos de um país, mas principalmente do serviço a dívida dos seus governos. Desta forma, a capacidade dos bancos centrais de defenderem a conversibilidade de suas moedas viu-se, desde sempre, afetada pelas pressões de objetivos incompatíveis com a defesa de tal política. Isto porque, era justamente na instabilidade e na assimetria entre os preços, valores das moedas e diferença nas taxas de juros, que se constituía o melhor momento de se ganhar dinheiro no mercado, mesmo que a pedra fundamental do padrão ouro, que vigorou no período anterior a Primeira Grande Guerra, tenha sido a prioridade da manutenção da conversibilidade das moedas dos países situados no centro do sistema, Grã-Bretanha, França e Alemanha.

A política monetária dos Bancos Centrais no padrão ouro desde seus primórdios mostrava-se indiferente  às questões relacionadas aos demais fundamentos do funcionamento das economias nacionais. As autoridades monetárias  estavam sempre prontas a defender a conversibilidade das moedas mesmo que para isso tivessem que sacrificar os interesses da maioria da população de um país. Caso certa  política de juros fosse responsável por afetar o nível de desemprego, a falta de representatividade política da classe trabalhadora insipiente  não dava chance para que ela pudesse se opor às decisões dos bancos centrais e, assim,  os efeitos nocivos eram ignorados desde que se conseguisse o objetivo fundamental de manter a estabilidade da moeda. Isso tranquilizava os investidores que ao contrário dos agentes que viessem a sofrer perdas a partir dessa política, aproveitavam as oportunidades geradas pelos desequilíbrios temporários para ingressar com seus recursos e aumentar seu ganho, com a garantia de que os bancos centrais agiriam no sentido de reestabelecer o equilíbrio do câmbio de um país, protegendo dessa forma o capital investido. Tal práticas geravam um clima de cooperação e de confiança entre os países que estavam no centro do sistema monetário estabelecido sobre o padrão ouro, onde seus bancos centrais se mostravam sempre prontos a intervirem em defesa da estabilidade de suas moedas e contavam com o peso do Banco da Inglaterra, que tinha se convertido, a essa altura, em um “emprestador de última instância”, sempre pronto a intervir no mercado para evitar os desequilíbrios, através de uma injeção de liquidez que garantisse a estabilidade financeira.

Porém,  os outros países localizados na periferia do sistema, cujos problemas não colocavam em risco  estabilidade sistêmica do bloco central, não contavam com a disposição dos bancos centrais europeus de saírem ao seu socorro em tempos de crise. Muitos países fora da Europa não dispunham de bancos centrais com os quais pudessem articular esse tipo de prática cooperativa e desaa forma apresentavam um sistema bancário frágil e vulnerável a perturbações que poderiam fazer desmoronar os arranjos financeiros tanto externos como domésticos de um país. Sofrendo ainda com o reflexo do modelo do “pacto colonial” tais países, caso não conseguissem o financiamento externo necessário, que privilegiava países investidores em projetos capazes de criar demanda para os bens de capitais produzidos pela Europa, conviviam com o desequilíbrio de seu balanço de pagamento que acabava por afetar a capacidade de atrair crédito suficiente para financiar o processo produtivo. Sobremaneira dependente da exportação de suas “commodities” os países da periferia viam suas receitas encolherem em tempo de crise confiança na sua capacidade de cobrir o “serviço da dívida” com suas receitas de exportação, gerando um ciclo vicioso que impactava suas contas corrente e de capital. Assim, toda vez que os investidores nesses mercados temiam a conversibilidade da moeda de um país em ouro ou a sua desvalorização, convertiam seu capital em moedas europeias para evitar prejuízos que sofreriam em ativos denominados em moedas locais. Em consequência  disso, ao longo da vigência do padrão ouro, os países “latinos” do sul da Europa e da América do Sul foram repetidamente obrigados a suspender a conversibilidade de ouro e a permitir que suas moedas fossem desvalorizadas, visando corrigir os desequilíbrios em seus mercados e melhorar a competitividade internacional.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

De quem é o dinheiro afinal? - Parte I

Trama

 

Assistimos a uma severa crise na Europa, talvez a mais grave desde que foi formada a União Européia e adotado o Euro como moeda comum. A Europa possui uma longa história no que diz respeito a interconectividade de seus mercados produtores e consumidores, bem como em relação aos ajustes necessários em seu sistema monetário para adequar os meios de pagamento ao fluxo de comércio e de capital. Assim, decidi contar um pouco desta história. O objetivo do conjunto de textos que passarão a ser produzidos aqui em formas de notas, visa compreender três períodos distintos: o primeiro deles diz respeito aos anos que se seguiram à 1879, caracterizado pelo aumento da solidariedade entre os Estados Nacionais modernos, tendo a Grã-Bretanha como nação hegemônica. Na sequência abordaremos o sistema monetário internacional após 1914 e a Primeira Grande Guerra, que vê surgir os EUA como potência mundial e vai até 1929 e a Grande Depressão. O terceiro período culmina com o acordo assinado em Breton Woods, em 1944, no meio da Segunda Grande Guerra, como parte dos esforços das nações do Bloco Central para manter estável um sistema monetário internacional, e por fim, o último período, que tem como marco divisório a assinatura por Richard Nixon, em 1973, do decreto que exime os EUA de converter suas obrigações representadas por dólares norte-americanos em poder do público ao redor do mundo em ouro. Como forma de fornecer algumas pistas para compreender a severa crise financeira que atinge os países da União Europeia bem como os EUA, nesses idos de 2012, tentaremos seguir o fio condutor das políticas dos governos desses países ao longo destes quase um século e meio de história.

Baseado na prática da cunhagem de moedas em metais preciosos desde tempos imemoriais, cujo valor de tais metais era reconhecido universalmente pelos países que os detinham em suas reservas, o metalismo ganha força na Europa a partir do século XV, como o acesso dos países europeus as reservas de metais preciosos nas suas novas colônias ao redor do mundo. O reconhecimento mútuo do valor desses metais criava um padrão monetário que sustentava as trocas comerciais bem como permitia a concessão de empréstimos entre as nações na modernidade incipiente.  A combinação de moedas de ouro, prata e cobre era a base para as compensações internacionais. Os residentes em um país, ao adquirir do exterior mais do que vendessem a países estrangeiros ou ao conceder empréstimos em um montante superior ao que houvessem tomado de empréstimos, acertavam as diferenças com dinheiro aceitável por seus credores. Esse dinheiro podia assumir a forma de outro, prata ou de outros metais preciosos e fazia a compensação dos déficits de seu balanço de pagamento .

Com a intensificação do fluxo de comércio e de capital internacionais, a partir do século XIX, a necessidade de ajustes nos diversos padrões monetários dos países visava evitar arbitragem de preços que colocasse em risco a estabilidade monetária. Como os estatutos monetários de muitos países, naquele final de século, permitiam a cunhagem e a circulação simultâneas de moedas de ouro e de prata (padrão bi metálico), se a relação entre a proporção dos dois metais na cunhagem de uma e outra moeda adotadas pela casa das moedas de um determinado país não estivesse próxima dos preços de mercado, isso detonaria a "fuga em massa" de uma dessas moedas de um determinado país para o exterior. Suponhamos que que 10 onças de prata fossem negociadas no mercado internacional por, aproximadamente, uma onça de ouro (proporção de 10 para 1) e que em um determinado país fosse possível obter oficialmente moedas cunhadas de igual valor contendo um certo montante de ouro ou um montante 9 vezes maior de prata (relação de 9 para 1). Isso geraria incentivos a arbitragem, uma vez que um interessado poderia importar 9 onças de prata e levá-las a casa da moeda para serem cunhadas. Em seguida, o especulador poderia trocar essa moeda de prata por outra contendo uma onça de ouro. Esse outro poderia ser exportado e trocado, por 10 onças de prata nos mercados externos. Esse movimento permitiria, então, não apenas recuperar o investimento como também obter uma onça extra de prata. Se essa diferença persistisse por muito tempo, os especuladores importariam prata e exportariam ouro até que todas as moedas de ouro no país tivessem sido exportadas. Esse movimento também aconteceria se a relação entre de preços entre um e outro metal no mercado estivesse significativamente abaixo da proporção de sua utilização na cunhagem das respectivas moedas, pois os especuladores importariam ouro e exportariam prata até que toda prata tivesse desaparecido de circulação.

A adoção do padrão ouro como uma prática monetária comum, no último quarto do século XIX,  pode ser atribuído ao fato da Inglaterra ter assumido uma posição hegemônica de potência financeira e comercial em um mundo que vivia seu primeiro surto de globalização e as práticas financeiras britânicas tornavam-se a alternativa mais viável para países que procuravam estabelecer relações comerciais e obter empréstimos das Ilhas Britânicas. O padrão ouro tinha sido adotado pela Inglaterra a partir de 1717, quando Isaac Newton, á época responsável pela casa da moeda britânica, fixou para a prata um preço em ouro excessivamente baixo, fazendo com que desaparecessem de circulação todas as moedas de prata.  Até que o padrão ouro viesse a ser adotado como prática monetária pelos demais países, esses conviviam com um padrão bimetálico e tinham que enfrentar desequilíbrios representados pela diferença entre a cotação dos dois metais no mercado internacional e a relação fixada internamente para a cunhagem de moedas. Sem a Inglaterra, que convidado decidiu na aderir, a Europa foi o palco da primeira união monetária que incluía, inicialmente, Bélgica, França Itália e Suíça e depois contou com a adesão da Grécia, resultado de uma conferência internacional realizada em 1865, em grande parte motivada por diversas ações da Bélgica no sentido de dar conta do fato de ter visto suas moedas, praticamente,  desaparecem de circulação no país. O acordo fixava uma base de conversão comum que padronizava as moedas nacionais de prata e foi seguido por um esforço dos membros para manter uma estabilidade monetária, engendrando posteriores acordos monetários formais que buscavam garantir a conversibilidade das moedas locais, que aquela altura já circulavam intensamente  fora de suas fronteiras. Fadado ao fracasso por conta do clima de instabilidade política que predominava no Velho Mundo, por conta dos inúmeros conflitos que envolviam o processo de estabelecimento dos Estados Nacionais, as uniões monetárias e a conversibilidade de moedas diferentes acabaram encontrando no padrão ouro internacional, uma unidade de valor que dava conta da estabilidade monetária de um sistema onde coexistiam não só diferentes padrões metálicos mas também onde já também circulava papel moeda não conversível.


E foi no rastro do Padrão Ouro que o mundo experimentou um rápido desenvolvimento do comércio internacional e da circulação do capital após 1879, período marcado pelo fim das guerras napoleônicas e tendo a Inglaterra como maior potência econômica. No início do século XX tinha surgido, então, um sistema monetário internacional baseado em ouro que deixara de fora apenas poucos países. Isso significava que nos países que tinham adotado o padrão ouro, sempre que solicitados, os governos estavam prontos para converter seu dinheiro em circulação em ouro a um preço fixo. O dinheiro em circulação, contudo, assumia formas distintas que se materializavam em ouro, papel, prata e moedas representativas. Uma vez que o fluxo comercial e de capitais tinham ganho um forte impulso como o incremento da capacidade de fazer circular, fruto dos avanços tecnológicos que passaram a interconectar os diversos mercados ao redor do globo, a composição das reservas monetárias internacionais assumia a forma de haveres monetários nos países cujas moedas eram conversíveis em ouro. Como a Inglaterra assumira a hegemonia nas trocas comerciais e de capitais, havia a possibilidade dos países manterem parte de suas reservas em títulos do Tesouro Britânico ou depósitos bancários em Londres, onde suas obrigações poderiam ser resgatadas em ouro, através da conversão das libras esterlinas em outro pelo Banco da Inglaterra. Assim países cuja sua moeda não eram conversíveis detinham em suas reservas internacionais moedas conversíveis (libra esterlinas, marcos alemães, francos franceses, suíços e belgas, coroas holandesas e dólares norte-americanos). A consolidação de um sistema monetário internacional, no início do século XX, refletia a força industrial e comercial dos países cujas moedas tornavam-se conversíveis a partir do lastro em outro que eram capazes de acumular como resultado do desempenho de suas economias. Ás vésperas da Primeira Guerra Mundial a libra esterlina predominava como  divisa nas reservas internacionais, respondendo por aproximadamente 40% do total das reservas. Em conjunto, francos franceses e marcos alemães respondiam por outros 40% das reservas. Vale ressaltar que os estatutos monetários, já naquela época, admitiam a emissão de moedas fiduciárias, ou seja, dinheiro não lastreado em reservas em outro. Essa parcela de dinheiro em circulação, em geral, tinha como colateral bônus governamentais. Isso significava que suas reservas em ouro e divisas estrangeiras conversíveis não poderiam cair abaixo de uma determinada proporção (geralmente 35% ou 40%) do dinheiro em circulação. E foi justamente o artifício da emissão fiduciária que deu flexibilidade à operação do padrão ouro durante o período que esse vigorou.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

The Rise of a New Order

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PREFACE

 

In October 2007, when I was preparing a presentation to the board of the Bank I have been working for in the past 28 years about the business forecast to 2008 in the several areas of economy our main clients worked in – major Brazilian and foreign groups that had grown exponentially in the past seven years – I realized there was something wrong in the “reign of Denmark”. By comparing the amount of financial assets circulating around the world with the amount of dollars generated by global GDP, I realized the “fictitious capital” was about 3.5 greater that everything produced at Main Street. Finally, I have reached the conclusion the degree of global leverage was not sustainable. We had the opportunity to engage in several “financial transactions” that involved some of the main Brazilian companies at the peak of global liquidity. “Hostile bids” to the acquisition of foreign companies were multiplying, and some of them were successful. The largest hostile bid until those days was the US$ 18 billion acquisition of the Canadian mining company Inco in late 2006 by Vale do Rio Doce that, back then, had not changed its name to Vale yet. After the completion of the acquisition, in early 2008, Vale announced its interest in acquiring another major global mining company, the Anglo-African Xstrata, for the “trifle” of US$ 50 billion. Most of the banks involved in Inco operation had already agreed to provide a new “acquisition facility”, a bridge “loan” used to finance companies’ acquisitions. In general, it matures in two years and the payment is made through the issuance of a new debt instrument by the borrower through shares, debentures, bonds and other long-term credit operations that aim at increasing its debt profile. Those operations were multiplying in the market due to the high liquidity of banks and the necessity to invest these resources in new assets. Since the Brazilian company was among the most sought-after companies by domestic and international banks due to its strong growth and the fact that it became the largest producer of iron ore and the second largest diversified mining company of the world, there would not be a lack of resources to another undertaking. In order to raise part of the funds to the acquisition, Vale announces a public offering of shares. In August 2008, the company concluded the process raising BRL 19.43 billion, a result that fell below the initial expectation, since a “financial crisis” of unknown proportions was already beginning. As a result, Xstrata shareholders rejected the “hostile bid” of the Brazilian company and the deal fell through. Then the crisis came. After that, I have talked several times with the executives of the largest mining company of the world about the consequences of this process and how they were relieved that it was not successful. At that time, taking on or financing a debt of such proportion would be extremely risky, since the take-out of the new bridge loan might not have been as easy as Inco’s. Moreover, they celebrated that the company have entered the crisis with bulging coffers after the IPO, which contributed to how the company weathered the two following years after Lehman Brothers went bankrupt in September 15, 2008, milestone that divided two eras.

 

What happened next has already been extensively discussed and analyzed by “experts”. It seems to be a consensus that there was excessive leverage in the global economy during the years that precede the crisis, to a great extent created by the deregulation of the credit market responsible for the development of financial “operations” that could multiply the basis of financial assets unlimitedly.  The effects of the credit bubble “burst” were felt immediately, plunging the world into a “financial crisis” of massive proportions. Several forecasts were made about the years to come and the impact of the crisis on local economies, increasingly interconnected. The risk of a “systemic crisis” seemed to be inevitable. Banks with liquidity and solvency problems, global credit crunch causing direct impacts on companies and on the economic growth, recession, unemployment and a reduction in investments.  The 1929 crisis was back at discussion forums and the comparison seemed inevitable. However, the major difference of this crisis was the conclusion that its epicenter was the developed countries. The model that caused the imbalance was “developed” in the “North” and its consequences would have a global effect, said the experts. The monetary authorities of the United States and the European Union quickly act to try to avoid the deep recession of the beginning of the 20th century. They had learned the lesson through the basic principles of monetarism about the need to control the money supply, thus avoiding a collapse. The Federal Reserve, the European Central Bank and the Bank of England pumped large sums of money into the system in an attempt to boost global liquidity. If the crisis had culprits, they seemed to be the “complex” financial structures called derivatives, which became the “stars” of the “virtuous cycle” of global growth and ensured the necessary liquidity to promote the “miracle of multiplication” of the resources in circulation. From “heroes” to “villains”. Before these events unfolded, I have had the opportunity to talk with Brazil’s former Minister of Economy, Gustavo Franco, in an event sponsored by the Bank to which he was invited as a speaker and asked him about the “puzzle” involving the United States public debt.  How was it possible to sustain a continuously growing debt and from where did the resources come to keep funding it? The economist gave me a simple answer. “From the financial entanglement caused by the growing profits of short-sellers” (hedge funds, investment banks and other speculators of the financial market) that kept feeding it through the vast mass of fictitious capital in circulation.

 

The sense of unease that permeated the financial market after the outbreak of the crisis, in late 2007, contrasted with the feeling that surrounded the market since the beginning of the 21st century. In a world increasingly interconnected through technological advances, which enabled the creation of a “global village” connected by a “great network”, the distances have become shorter and the concept of time was changed.  In a virtual space of continuous circulation of bits and bytes, the global economies experienced a prosperous period, in which the abundance of liquidity enabled massive investments to be made since capital was flowing through the globe at an impressive pace. Circulating capital enabled several operations, from the financing of mergers and acquisitions of major corporate groups to public/private partnerships that enabled investments in different infrastructure projects, construction of ports, railways and power generation and transmission facilities. Large business groups become international, increasingly expanding to beyond their borders, and there was enough capital to fund their growing strategies, represented by investments in public and private debt titles and securities issued by companies and government. At the same time, financial institutions and investors from all over the world were seeking to increase the amount of capital in circulation through investments that often were unrelated to the projects in progress in the real economy. Therefore, the financial indexes traded in the stock market and in the counter gained a crucial importance by feeding the financial entanglement, whether working as a protection against the variation of the prices of assets in circulation or making capital more profitable through investment positions that speculated on the variation of assets’ prices in the short-term and boosted the profits of portfolios ran by assets managers, totaling trillions of dollars. The need to pay for this capital in circulation pushed investors into several markets and the impact could be seen on the strong demand of the operations related to the issuance of debt or shares. New issuance multiplied at impressive proportions and the demand of investors was surprisingly high. When mining company Vale went to market to refinance the US$ 18 billion loan through the issuance of debentures, euro bonuses and bilateral credit transactions or syndicated operations with several financial institutions, the strong demand for these bonds enabled the company to refinance the total debt owed to the banks way before the deadline set to take out the bridge loan used to the acquisition of the Canadian nickel mining company. IPOs happened on several stock markets around the globe and every project, at that time, seemed to be feasible, since there was a significant amount of capital in circulation willing to take increasingly higher risks to ensure its yield. It all would have been perfect if not for the imbalance between the amount of financial assets in circulation and the wealth generated by world economies. That imbalance showed that the degree of debt leverage had crossed a safe limit. After all, we were living in the era of capital deregulation, in which the market was considered an entity capable of correcting the distortions created in the process of global exchanges.  However, what happened in practice was a gradual decoupling of Wall Street transactions from Main Street’s, especially in the United States and Europe.

 

In recent years, we had turned to Wall Street as a whole for advice on how to run the complex system that is our economy. Now, who is there to turn to? (Joseph Stiglitz, The World Free Fall)

 

The impact of the burst of the bubble caused by excessive leverage of the world financial system was not felt all at once. That happened because, although world economies were interconnected in a great network, there was a difference on how the complex economic system was managed by each country that were part of it. In the beginning, it was thought a systemic contagion was inevitable and, sooner or later, every local economy would suffer the consequences of the financial crisis that hit the United States and the European Union. However, what followed these events seemed unexpected – at least to those who insisted on saying a decoupling was impossible at that stage of the game, in a world increasingly interconnected. While governments and monetary authorities of the countries responsible for the crisis rushed to ensure liquidity in the financial system – by injecting resources into their main financial institutions to ensure their capacity to honor their commitments to the market –, the actions of the emerging nations aimed at ensuring economic growth, since it was the responsible for the level of development achieved in the past decade. Those economies felt the impacts of the crisis, mostly over the two years that followed Lehman Brothers’ collapse. However, the dynamic growth achieved by the emerging nations, leaded by “growth engine” called China, provided a rapid way out of the crisis before we could talk about a global recession. The reason the developed countries and the emerging nations had different reactions is simple, but requires an analysis that goes back in time and seeks to evaluate the dynamics of the development of a model that characterized an entire era.

 

On the following pages, we will try to map this process from the traces left by the events that marked the consolidation of the production model that emerged as hegemonic in an era known as “modernity”, based on the observation that we are living in a threshold between two eras. The lack of historical distance hinders the understanding of events in the exact moment of their occurrence. Therefore, it is difficult to predict any outcome without simplifying it, making gloomy predictions or even inaccurate statements. However, the certainty that we are experiencing a rearrangement of the center of gravity of the world economy led us to a journey through the events that caused the rise of a group of countries that began to run the global economic system, laying down the rules to be accepted and followed by other agents; countries that used to play a secondary role in the process. Therefore, the Rise of a New Order tells a bit of the history of the alignment of the development of the body of modern society, based on a point of view that focuses on the new role of the economies that, over the past six centuries, suffered the consequences of the actions of the developed countries, which set the pace of the changes that spread across the world during this period. Former colonies, poor and less-developed countries, periphery countries, emerging nations –  the expressions have multiplied to try to define a group of agents that are seen through the ethnocentric eyes of those who developed and ran the civilization model that was established from the 15th century. Agents that, at most, were considered essential to serve the interests of the countries that focused on the project of the construction of a new world. It expanded its borders to the most remote corner of the planet and disseminated economic practices, culture, science, technology, and a political system to the rest of the world population in an irresistible way. Nevertheless, this process was not peaceful and painless, but rather took place through a long history of suffering and dominance of a great part of the civilized world, leaving a “high bill”, since the majority of the world population do not take advantage of the benefits produced by this development model.

 

If the turn of the millennium brought a new century concerned with the possibility of a major bug that could jeopardize computer systems throughout the planet, it also brought marks that point to the transition to a type of society in which the information digitized into bits and bytes will definitely play a role that will revolutionize the ways of “being together” and “coming into conflict”. In addition to these transformations, there is the history of a civilization that is characterized by its highly creative ability to deal with the inherent problems of human beings and the internal and exterior nature over the process of insertion in the reality that surround them. The effects of this ability can be traced from the achievements that followed the establishment of the civilization of reason, which carefully examined reality in its formulas and interpretations of the impersonal movement of the world around it. The impacts of this “development” can also be seen – from a point of view of not always positive consequences –, considering its survival in the planet it inhabits. The approach of the subjects that follow this introduction considers one of the most visible impacts of this development model: the concentration of wealth in the hands of a small minority that denies the right to share the advances produced by civilization over the past six hundred years to most individuals. The modern era achieved an unprecedented level of development in a short period with respect to the improvement of life condition of the individual on Earth; however, it failed to distribute these benefits on a global scale. The rise of a new order raises hopes that the current stage of civilization, developed by “language individuals”, promotes the necessary adjustments and expand the achieved benefits to groups of people and countries that were left out for a long time. With this in mind, setting a threshold between two eras would work as an inflection point, which holds the hope of changes and not only encompasses the development of the complex interaction processes between the human being and nature to generate palpable benefits, but also make them available to the large population that developed in the edges of the sky, oceans and continents, and is close to seven billion inhabitants in this planet called Earth.

 

The process of interaction of individuals in the developing threads of civilization over the battles of several forces that resulted in different forms of organization balanced the interests that were stratified in the crystallization of social bodies. Traveling through these structures requires, right from the start, a guide and markers that enable the journey through a path riddled with shortcuts, curves, climbs and disruptions. Therefore, we have chosen a brief itinerary and selected some markers to make this task easier. The choices reflected in this book come from a particular path and bring elements that coexisted along the way and were driven by a search that has never intended to provide answers but to make silent questions.  This method deliberately does not preserve the impartiality of the line of argument developed in the course of the analysis of some facts since I learned some time ago how risky neutrality can be to a “cartographer” of the human sciences. However, the shame of imprecision or the concern that the words can take the reader far from the initial goal of argumentation is present in the excessive number of quotation marks in the text. They might be an attempt to partially appropriate certain meanings that expressions hold when “extracted” from mouths that so many times said them but that, at the same time, cover them with multiple meanings that were not said or just intuited when systematically repeated. The fact that I have always worked in a financial institution and that, over the past ten years, I have been directly exposed to the financial market strategies help me to discuss some subjects, however, it raised a doubt that followed me during the entire process of writing: how overly technical was I being for choosing to maintain certain “market” terminologies, extremely common “jargons” to the people from this market, but not so usual outside the professional circle.  Nevertheless, with the financial crisis that hit the world in 2008, some subjects became more familiar to the general public, who is distant from derivatives and leveraged acquisitions, since it caused consequences to the daily life of consumers worldwide. Although the approach developed in the “Rise of a New Order” covers themes that are not so close to the day-to-day life of the people outside the financial market, it might serve as a compass to the reader that wants to have an overview of the constitutive process of this “model” of civilization known as “modernity”. It addresses themes related to its consolidation as an economic system, system of thought, and political system, represented by capitalism, rationalism and democracy, unraveling intricacies that can take the words to distant universes from those of the “common sense”. Moreover, I could not fail to include a philosophical reflection on this consolidation process and the possibility of a new “era” as a result of the combinations I call “over-modernity”. Although it is concentrated in the chapter entitled “Philosophical interlude”, it crosses the entire text the same way and with the same vigor of the lines of flight that take us to blank universes, where meanings were not yet defined and the sense, as an event, insists to arise.

 

Welcome to the “rise of a new order”.

 

 

 

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Geografia do Lugar Nenhum

“O devir não é mais o negativo do ser, torna-se uma dimensão do ser, correspondente a uma capacidade que o ser tem de se defasar em relação a si mesmo, de se resolver defasando-se”. (Gilles Deleuze)

 

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Olhos de Pedra
Carbono e Cilício
Como considerar um objeto qualquer a partir da perspectiva de um processo de ilimitada mudança? A identificação das coisas se dá através da capacidade de se gerar um quadro geral que limite e reparta em fases tudo aquilo que permanece e a partir daí se possa traçar um princípio de identidade. As fases seriam os estados de coisas de um Ser no qual se realiza uma individuação e onde uma resolução qualquer aparece pela repartição dos traços comuns.  Uma vez que se tenha a capacidade de fixar os traços que permanecem em uma repetição do mesmo arranjo, estabelece-se uma relação indenitária entre grupamentos que se identificam por semelhança ou dessemelhança. Daí ser possível reconhecer os objetos através do seu Ser e dizer o que deles permanece como sua identidade. Se passarmos à analisar o processo de reconhecimento daquilo que permanece como traço indenitário, por um sujeito  que relaciona as repartições e as identifica, encontramos uma interioridade que reflete e organiza os elementos como imagens dessa delimitação e onde cada imagem recupera aquilo que permanece dentro dos limites de uma identidade qualquer. Porém, a simples constatação de que o processo de recognição envolve um mundo em movimento, faz com que toda observação se constitua como um processo dinâmico de relacionar aquilo que se repete, colocando em evidência a permanência de determinados arranjos cujos limites estabelecem a condição de identifica-los ao longo de uma cadeia de transformações no tempo e no espaço.

A história do pensamento se constituiu como uma tentativa de se delimitar as identidades e encontrar nas repartições em fases o Ser das coisas. As fases são os estados no qual se identifica um arranjo qualquer de combinações que pode ser recuperado a qualquer momento pelo ato da recognição. O ovo; o embrião; o feto; a  noite; o dia; o tempo; o ar; a chuva; a terra. Fases repartidas que organizam o estado de coisas que carregam em si sua identidade entre um piscar de olhos que não tem dificuldade de reconhece-las uma vez que elas estão catalogadas em imagens interiores do sujeito cognoscente. A próxima tarefa é dizê-las. E aí surge a linguagem como o instrumento que possibilita a expressão das identidades, através de um esforço de organizar um mundo onde coabitam as coisas, suas imagens e o sujeito que as percebe, as cria e as diz, onde se deve ser capaz de identificar, imediatamente, as palavras, às imagens e as coisas. Assim, esse dizer deve evitar, ao máximo, a equivocidade que coloque em risco a identificação entre tais arranjos, sob pena de um aturdimento que comprometa todo esse processo. Sendo assim, não é difícil entender o porque do Devir ter sempre representado ao longo dessa história uma ameaça a dissolução do mundo organizado pelas identidades, uma vez que nele não é possível capturar traços distintivos do Ser, ressaltando a capacidade  que o Ser tem de nele se defasar em relação a si mesmo, criando uma diferença absoluta na qual já não existem fases que possam ser tidas como semelhantes ou diferentes,  mas uma multiplicidade  onde o múltiplo já não é um adjetivo ainda subordinado ao Um que se divide ou ao Ser que o engloba, mas tornou-se substantivo, uma multiplicidade, que habita continuamente cada coisa.

Diferente da identidade do Ser a multiplicidade do Devir abre uma linha de fuga por onde passam todas as mudanças e onde não se é capaz de dizer, se não, o tempo e o espaço levados ao infinitivo.  Nele não se procura a adequação entre os significantes e o significado referente quando se diz, pois não se diz mas o que a coisa é mas no que ela constantemente está se tornando. Para compreender esse movimento no infinitivo, onde não se destaca mais o verde, a árvore, o dia ou a noite, mas o verdejar, o arborescer, o amanhecer e o anoitecer, vai-se em busca do Acontecimento; uma multiplicidade de agenciamentos de termos heterogêneos que estabelece ligações e relações ente eles ao longo de ilimitados movimentos de contágio. Ao invés de se definir através da catalogação de características comum que representam um gênero , espécie ou função,  persegue-se os agenciamentos nos quais cada termo entra e sai no seu processo de vir-a-ser. Não há de se falar em estados do ser mas das relações conjugadas que defasam as formas, através de um Acontecimento que se estende e se contrai no Devir de um infinitivo movimento de um diferente amanhecer a cada dia, dando sempre um novo céu, um céu que aqui pode assumir o posto do infinito, onde sua estrutura ilimitada e ausência de fronteiras contrasta com um espaço ocupado por todas as extensões e as coisas materiais diferenciadas através da experiência sensível. Cores e formas estendidas acima de nossas cabeças são apenas limitadas pela linha do horizonte que, aparentemente, fixa-se ao redor de um espaço ocupado pelos objetos  sobrepostos. Como uma dobra que distingue o volume de dados fixados pela nossa visão, o horizonte aparecer como o último limite da percepção sensível. Além desta linha, temos apenas o caos de possibilidades dependentes da abstração que cria um plano para projetar as formas do nosso pensamento. Nossos sentidos não são capazes de adquirir cada forma, a menos que a abstração organize o mundo apreendido pela percepção, criando um apoio para o pensamento e para cada coisa representada por ele. Se a abstração  fornece o  apoio ao pensamento é a linguagem que suporta as formas abstraídas do pensamento.
O mundo adquirido pela experiência sensível, representado pelo pensamento e descrito pela linguagem vem até nós e temos que nos tornar capazes de separar o que é observado do ponto de observação onde se encontra o sujeito e onde cada possibilidade poderia ser a virada de chave” para o mundo das formas. Esse é o plano onde o ato de conhecer tende a coincidir com o ato que gera a realidade, e podemos chamá-lo de plano de referência. Um espaço onde são constituídos os limites ou fronteiras em que o sujeito confronta o caos de todas as possibilidades como uma pluralidade de mundos que emerge de um estado contínuo de fluxo. Esse é o plano de onde as diferenças entre o conteúdos aparecem e permitem ao sujeito dizer o objeto. As diferenças surgem quando o sujeito em si superou o conteúdo no qual está misturado  e a excitação gerada por este movimento é conectada em uma cadeia de sínteses que constitui o processo do conhecimento. Se temos a intenção de atingir   a potência que subjaz em cada conteúdo, ao longo do processo de cognição, faz-se necessário que compreendamos de que maneira a abstração funciona com primeiro suporte para a o processo de reconhecimento e definição do estado de coisas que saltam a existência no momento que cada conteúdo  aparece para o sujeito da abstração - tudo que percebemos, sentimos e pensamos. A partir desse ponto, vem a distinção entre dentro e fora, sujeito e mundo. A abstração cria medidas para ver e para descrever,  numa sequência de eventos que produz o tempo e o espaço, regulamentando essa sequência e abordando as coisas em um movimento em que um conteúdo está relacionado a outro. Se queremos chegar a duração pura dos eventos fora do limite de tempo e espaço, temos que  recusar a usar a abstração como essa ferramenta  do pensamento. Como poderíamos, porém, ser capazes de superar a abstração? A resposta deve passar para além do limite de cada imagem do pensamento, onde encontram-se os dinamismos que se recusam  admitir a pura determinação e onde os conteúdos escapam das categorias tradicionais do pensamento abstrato e de uma língua ordinária como o apoio à abstração.

O problema deve conduzir-nos a uma linguagem que é livre para operar a viagem para os (não) lugares do dinamismo puro onde o pensamento é formado, sem fixar formas da abstração e onde somos capazes de ouvir os sons do silêncio, ausências e lacunas que nos pões em contato direto com a força do virtual. Seria melhor que já pudéssemos definir, nesse momento, o conceito de virtual, empurrando as frases muito longe e à frente dos limites da linguagem da abstração, recuperando o potencial deitado sob as palavras, fora do campo de atualização e livre de toda e qualquer medida.  Por se consistir num movimento ilimitado e sem suportes referenciais o virtual localiza-se numa dimensão do antes-de-ser, onde as potências, através de uma desaceleração que produz as diferenças, adquirem as formas a partir das quais se  permite s dizer o mundo apreendido pela percepção. Nesse ponte se requer uma operação que não implica em qualquer ponto de partida ou de chegada porque estamos  impedidos de  fixar as diferenças e repetições pelo princípio da identidade, onde o tempo deve ser tomado como um todo, que salta sobre a ruptura de presentes repetitivos, abrindo um espaço sem extensão, apenas povoado por multiplicidades intensivas. Entrar nesse universo requer um cuidado especial se não se tem a intenção de cair em um completo aturdimento, tendo em conta que começar a velejar nesse campo é adentrar em um rio que é um líquido misturado que nunca pode parar de correr, como originalmente descrito por Heráclito. Se superarmos a abstração como o limite último da realidade, entramos em uma dimensão que poderia ser considerada impensável e indescritível, à primeira vista, a menos que se admita submergir  em um rio sem margem, superfície ou fundo, que corre nos "não-lugares" onde o pensamento foge, a linguagem escapa e a abstração perde seu sentido.

Para marcar esse caminho até o virtual como um requisito para o pensamento sem abstração, voltando-nos a Nietzsche e sua crítica da história, onde ele denuncia a importância da memória como uma ferramenta que corrige o presente e cria um campo onde o tempo é arquivado como solução de continuidade do pensar; organizando o passado e futuro que fogem do presente, transformando o movimento da vida em um bloco de extensão linear. Apelando ao “esquecimento” como um instrumento de libertação dessa cadeia de significados temporais ele descreve esse sentimento a partir da visão dos rebanhos que pastam sem saber sobre o ontem ou hoje,  na primavera ao redor, onde comem, descansam, digerem, saltam novamente e assim, de manhã até à noite e de um dia até outro dia, com seus gostos e desgostos intimamente ligados a instantaneidade do momento, sem melancolia ou cansaço. Ao mesmo tempo, voltemo-nos para a definição de liberdade em Spinoza, onde uma coisa é dita livre, quando existe pela necessidade de sua natureza e em si mesma está determinada a agir. Essa determinação, no entanto, não está ligada a vontade autônoma de um sujeito qualquer, mais a potência desumana para a vida. Nem categórica nem hipotética, mas impulso imperativo como natural. Tudo é natural se considerarmos a natureza como um conjunto de forças em um relacionamento constante.  Nietzsche chama essas forças de "quantum”. Forças que dão forma e sustentam tudo o que existe. Forças que não se limitam porque mudam a todo tempo tentando encontrar um espaço de expressão. Forças gerando formas, a matéria densa e visível e a matéria invisível aos olhos; matéria orgânica e inorgânica, formas de conteúdo e formas de expressão, os corpos, os instintos, as paixões; energia que mantem as coisas agindo o seu ser. Segundo Nietzsche, "quando algo acontece dessa ou daquela forma e não de outra forma, não é a consequência de um princípio de uma lei ou ordem, mas ele mostra como as forças estão no trabalho e como elas exercem sua potência sobre outras forças (...) Um quantum de força é definido pela ação que ela produz e pelo efeito que a resiste " (Nietzsche).

Tudo o que existe se resume como um processo interativo de forças. Chamamos essas forças relacionadas, então, formas da natureza, uma vez que consideramos a natureza como a essência de todas as coisas que existem, e só através de sua natureza existem, nesta ou naquela forma e não em outra. Cada coisa traz uma forma de existir de uma maneira específica e que continua a liberar sua potência, mesmo quando enfrenta a potência de qualquer outra forma que intervém e evita que ela siga seu curso. A forma da chuva que cai e que para de cair quando a terra aparece como a forma que a faz correr no leito do rio, até que a forma do sol comece a evapora-la, quando então  ela encontra a forma do frio e se condensando se faz nuvem . A forma de excitação sexual de um corpo com outro corpo que segue animando mudanças até que essa excitação, pela explosão de uma forma orgasmo faça com que o forma derramamento de sêmen corra para encontrar a forma de um ovo que o impede de continuar funcionando como sêmen através fertilização que libera a forma óvulo e as potências das formas de um processo meiótico que a faz multiplicar em unidades cada vez maiores da vida. A realidade que invade os sentidos consiste na forças relacionadas nas formas, num mundo que aparece como intensiva relação entre elas. O poder de observar e descrever esse processo é um estado dos seres de linguagem chamados, por si mesmo, de animais racionais, que apreendem as formas do mundo e as organizam no espaço e no tempo, fazendo com que essas formas assumam particular importância na cadeia da significação de sua relação  no mundo. A capacidade de obter os conteúdo que se levantam frente a percepção sensível, cria as fronteiras entre as dimensões do interior, exterior, altura, largura e profundidade, separando conteúdos no tempo e no espaço, catalogando e gravando as formas em sua memória. Isso torna o animal racional capaz de reproduzir pelos nomes que definem. Em seguida, os seres da memória constroem um mundo particular através da linguagem e esse mundo é composto de objetos vivos e inanimados que, através da taxonomia dos conteúdos da natureza faz erigir torres de observação, como uma espécie de habitat privilegiado para os seres racionais.

Através de sínteses produzidas pela percepção sensível, pela memória e pela linguagem este ser vai criando as diferenças fundamentais que o permite torna-se ser-homem. Através de um incansável esforço, passa então a distinguir as diversas formas da natureza, para ajudá-lo a governar sobre elas. Como o fluxo da natureza é impermanente, considerando a ação dos diversos quantum de forças que produzem as formas que resistem reciprocamente  nas intermináveis mudanças processadas na realidade do mundo, o homem tenta destacar as  formas que não mudam em sua própria essência e por  prevalecem sobre as demais, e dessa maneira, tenta estabelecer um limite entre o mutável e o imutável, o impermanente e permanente, já que o mundo parece não protegê-lo da avalanche de transitoriedade que ameaça devolvê-lo ao estado indiferenciado, do qual nasceu para se estabelecer como observador através da capacidade de reter o momento presente em sua memória e transforma-lo em história. Fora desta história através da qual o ser é dito, por ele mesmo humano, multiplicam-se misturas de forças singulares. Mesmo fora dos  limites pelos quais se pode descrever esse processo, os significados da linguagem tendem a fixar as causas e efeitos dessa humanidade, que sempre esbarra nesses limites, mesmo se o ser continua subindo ao mais alto dos céus sobre sua cabeça ou indo ao mais profundo do abismo sob seus pés. Estes limites foram estabelecidos por diversas representações ao longo da história humana, sempre no intuito de proteger os seres da linguagem da ameaça de uma vertigem que quer dissolve-lo de volta na natureza como um potência, juntamente com outras, sem memória da história, ou  consciência do processo de estar no mundo.
Entre Azuis

Cinzazul
Tons do Mesmo Céu
No entanto, se temos a intenção de atingir o lugar do campo de forças em sua relação intensiva, fora do sentido ordinário da matéria densa ocupando uma dimensão extensa, precisamos lidar com lugares que não podem ser confundidos com o espaço da extensão onde as formas se encontram, mas um espaço de multiplicidade de intensidades em um movimento ilimitado. Neste plano, o pensamento carece desterritorializar as formas da matéria densa até que se faça esbarrar na multiplicidade de singularidades e nas linhas de variação perpétua. Multiplicidade, aqui, seria então um movimento ilimitado de potências em um caos de convivência e sua essência é uma frequência como vibração de intensidades múltiplas. O mundo do espaço extenso aparece quando as potências tendem a se despedir do caos, abandoná-lo em favor da regularidade e previsibilidade dos fenômenos, através da cristalização que traça vetores entre o caos e a ordem. Se temos a intenção de encontrar o caos em estado puro e sem limites, como multiplicidade de potências em um movimento descontínuo, temos que atravessar o limite das formas através de um pensamento que seja capaz de entrar na variabilidade absoluta, movendo-se nas velocidades diversas das caóticas forças. A matéria densa, que ocupa o espaço das medidas, surge do caos como uma relação de forças diferentes. Se o caos consiste em um campo de modulação incessante das diferenças, o processo de atualização da matéria densa  consiste em relações que se constituem através da aceleração e as paradas dessas forças, distribuindo as intensidades e reduzindo a diferença à identidade. A atualização move fluxos de proliferação de diferenças até sua redução e é dada como a equalização da diferença. Diferença, nesse sentido, é o absolutamente diferente; as forças indeterminadas de um fluxo descontínuo, que tem a diferença em si como sua condição, num movimento de coexistência de diferentes ritmos como potência geradora. Seus ritmos diferentes podem ser descritos como energia potencial e elemento fundamental de um estado integrado, onde a instabilidade deste fluxo está diretamente relacionada as forças e à sua atividade. Quanto mais um estado é integrado, maior é a energia potencial ou a energia livre em seu fluxo. Energia livre é um movimento descontínuo de forças em um estado de diferença absoluta. O estado integrado também pode ser descrito como uma repetição dessa diferença absoluta num jorro imprevisível de novidade. O estado integrado é a dimensão do virtual como um movimento de forças ou tendências em seu processo absoluto de diferença. O virtual é a diferença pura, o novo, diferença absoluta que se repete como novidade, fazendo cada vez como a primeira de uma série que é sempre capaz de diferir de si mesma. Ele é o que Nietzsche chamava de "eterno retorno". Não o do mesmo, mas do novo e do absolutamente diferente. A matéria como forma de conteúdo aparece quando essa série de forças divergentes resultam na formulação como produto da  diferença, correlacionando frequências com um apetite de novidade e lançando-as num campo de atualização.

Nessa perspectiva o virtual pode ser pensado como um fluxo intenso de lugar nenhum para nenhum lugar, em um movimento que não pode ser descrito em termos de uma trajetória geométrica espacial, mas apenas em um campo  de  frequências sem interação. Frequência é o modo como as forças estão tensionadas, podendo ser expressas em termos de vibrações. Existem dois tipos de relação de frequências. Um produz sistemas integrados, onde não existe uma interação das frequências  e um outro que produz um sistema não integrado, onde a interação das frequências é dada por ressonâncias. A correlação de frequências prossegue minimizando as variações e tendendo a limitar a ação das forças, em ciclos cada vez mais estreitos, resultando na codificação do fluxo da matéria-movimento, em um processo de sedimentação que leva a uma diferença de graus de sistemas não integrados . Neste ponto, poderíamos definir o mundo da matéria densa como um processo de estratificação de sistemas não integrados. No final do século XIX, Henri Poincaré demonstrou a diferença fundamental entre sistemas integrados e não integrados. Ele concluiu que a maioria dos sistemas dinâmicos não eram integrados. Um sistema dinâmico integrado é dito como um sistema onde as variáveis podem ser definidas pela distribuição de um conjunto de forças livres que levam esse sistema a se comportar isomorficamente. Ele demonstrou que apenas uma reduzida classe de sistemas dinâmicos eram  integrados e que essa integração é ameaçada pela existência de ressonâncias entre os graus de liberdade em um sistema. A ressonância pode ser tida como uma relação de interação entre as frequências e é produzida quando uma das frequências é equivalente a um múltiplo inteiro da outra. Os sistemas integrados poderiam ser representados como sendo constituído por organismos sem a interação, em um campo de pura qualitatividade das diferenças. A dimensão de tensões e vibrações que expandem-se como um movimento ilimitado de uma diferença pura é o que chamamos de a dimensão do virtual. Por outro lado, sistemas não integrados representam um campo onde a colisão de forças faz uma simétrica distribuição de diferentes velocidades e cria a correlação das forças em um fluxo que reduz a diferença pura, ou a diferença de espécie, a diferença de graus de energia . A luz emitida e absorvida, o acoplamento de sons e quantum de energia, são  resultados de diferenças entre  os níveis de força como o limite da expansão e duração pura do virtual. O ponto mínimo dessa interação aprece também como uma frequência onde a forma indica o modo como as diferenças de intensidades são comunicados em um espaço de extensão. Assim, a matéria densa é um espaço de contração de vibrações em um ponto de interação de forças que determinam o campo de individuação dos eventos atualizados. Até este ponto a diferença pura não solicita qualquer outro elemento que não a  multiplicidade das forças  que assumem o espectro de um monismo isomórfico de um movimento sem interação das partículas, energias ou potências.  O movimento no campo da integração é um eterno retorno da expansão das forças como uma diferença absoluta de uma duração. No entanto, a questão principal é dada no mesmo ponto. Como as ressonâncias ocorrem no processo do virtual para o campo atual de sistemas não integrados?

Voltando aos pensadores pré-socráticos vemos encontramos um elemento introduzido, como responsável pela passagem do virtual para a dimensão atual: o "clinamen". De acordo com Lucrécio ele é a guinada imprevisível que ocorre "em nenhum lugar fixo ou tempo. Os primeiros atomistas concebiam o processo de formação do mundo material como uma queda dos átomos que se moveriam para baixo através do vazio, pelo seu próprio peso, até começarem a se desviar um pouco em um espaço e num empo bastante incertos,  apenas o suficiente para que pudéssemos  dizer que seu movimento mudou. Mas se eles não tinham o hábito de desviar-se, todos eles cairiam para baixo através das profundezas do vazio, como gotas de chuva, e nenhuma colisão ocorreria, nem qualquer choque seria produzido entre os átomos. Nesse caso, a natureza nunca teria produzido nada. De acordo com os atomistas em primeiro lugar, a natureza global é formada pelo conjunto de átomos em um isomorfia estática e entrópica que pode ser comparada com um estado de  morte. As coisas seriam estática em um fluxo perpétuo. Assim, os átomos seriam imortais e estariam em queda livre, sem se tocar entre si, num  e fluxo paralelo equivalente ao princípio da inércia. O "clinamen" seria a inclinação na cadeia atômica inerte como uma força motriz ou o ângulo mínimo que produz choques e reviravoltas no tempo e no espaço da dinâmica. Neste sentido, o estado original das coisas descritas pelos atomistas está mais perto de representar o sistema integrado de Poincaré, onde o "clinamen" seria responsável pelas ressonâncias entre as forças. Portanto, o isomorfismo do sistema integrado é o estado de coexistência de uma multiplicidade de quantum de energias em um movimento estático, no campo virtual de um eterno silêncio dos espaços infinitos. Quando o silêncio é quebrado, o campo atual das forças correlacionadas aparece e reúne o mundo e a vida. O mundo, objetos, corpos e até mesmo a alma seriam parte de um declínio de um sistema integrado. A natureza se recusou a morrer exatamente quando ela nasceu, mas continua a cair de volta à morte que é o estado integrado e isomórfico de forças que não interagem entre si neste estado imortal; imortal só porque  não nasceu ainda. O processo de formação do mundo e dos estados de coisas é uma relação de forças em suas ressonâncias, descendo em um processo de existência, em choques e interação.

A pergunta agora é: O que faz uma força a insistir, persistir em sua potência, mesmo quando outra força a ela se opõem? Diríamos que a persistência é a natureza da força que faz com que ele tenda a algo sem ser capaz de se liberar dessa ação particular. Se considerarmos que toda forma é uma relação de forças e que todo  corpo é o último limite da unidade de formas, diríamos que certos organismos  tendem a insistir por causa de sua própria natureza, e nenhum outro conjunto de forças relacionadas é capaz de detê-lo, mas apenas  extermina-lo. Parece algo facilmente observável que a natureza das coisas carrega, em si, a potência de continuidade, mas a relação entre essas potências libera poderes que irão impedir que as forças continuem a subsistir enquanto potência, forçando-as num processo de interação que é a origem do estado de coisas do mundo. Porém, não basta aqui afirmar que o movimento das forças é composto pelas dimensões virtuais e atuais, enquanto não pudermos explicar como é processada a passagem entre essas duas dimensões pelos poderes que interagem as potências. Com as coisas se tornam o que elas são? Como vislumbrar o produtor dessa passagem? Uma força que ninguém sabe? Como evitar, de saída, a ideia de um primeiro produtor como motor? Como parar a fonte de vazamento infinito das forças? Como evitar um primeiro motor transcendente, fora do mundo da natureza como elemento separado.  E se por acaso conseguirmos enxergar essa passagem, como dizê-la?

 

sábado, 17 de setembro de 2011

A Fala, o Falante e os Conteúdos Falados - uma Dança Meta-Estável


 

"É preciso um desvio da fala. Criar foi sempre coisa distinta de comunicar. O importante talvez venha a ser criar vacúolos de não-comunicação, interruptores, para escapar ao controle" (Gilles Deleuze).

 

Arte barroca 11

Picasso cubismo arte

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Dizer algo que se abre a percepção mantendo o campo da fala como um campo onde se relacionam as diferenças, é seguir essas diferenças através de um discurso nômade, através dos desvios, dos saltos e do jorro imprevisível de novidade. Como então poderemos dizer tais diferenças através de uma linguagem que é o fundamento de uma abstração que organiza o mundo através do esquadrinhamento de um espaço fechado, onde os significantes invequívocos reproduzem as regularidades como forma de controle absoluto e, portanto, como determinação exata e sem hesitação do poder da ordem. Precisaríamos, de saída, afirmar a errância de um mundo múltiplo e semovente, pelo qual intensidades sempre heterogêneas, sempre diferentes entre si, se conectam e se desconectam permanentemente. Esse mundo jamais poderia ser encerrado em um recinto de um sistema fechado, uma vez que ele é o lugar da desordem, do imprevisível, do incerto e do informe. Chegar aos vacúolos de solidão e de silêncio, ali onde algo mereceria ser dito, seria, então, atingir o lugar enigmático onde estes acontecimentos se passam; onde alguma coisa passa entre os bordos; estouram acontecimentos e fulguram fenômenos. Mundo da multiplicidade de elementos, sem designação nem significação, mas que se apontam e se determinam reciprocamente a partir de relações diferenciais que pertencem ao campo do virtual. Contrariamente e de forma ordinária, a linguagem ordenadora dos significados fixos pertence ao campo da atualidade. A "atualização, diferenciação ou gênese converte as relações diferenciais em espécies  distintas e as singularidades nas partes e figuras extensas relativas a cada espécie. A diferenciação é especificação e organização, é qualificação e composição, é qualitativa e quantitativa. Ela desdobra as virtualidades em seus produtos empíricos, mas sem jamais esgotá-las, mesmo porque elas perduram segundo as linhas divergentes atuais" (Gilles Deleuze). Neste ponto há de se invocar um termo, que seria responsável pela passagem entre essas duas dimensões, como "campo que põe em relação as multiplicidades virtuais e as forças do fora, o que, por sua vez, vai desatar o processo de atualização"(Gilles Deleuze). Deleuze o chama de "precursor sombrio". Um intensidade individuante que age como um misterioso portal que garante o mundo em sua discordância, marcha da criação e da novidade. Um elemento de sustentação das ressonâncias entre potências em suas diferenças absolutas, que como partículas em movimento num vazio, seguem em sua infinita marcha sem se tocarem, até que uma inclinação mínima as combinam e as fazem aparecer como um raio que fulgura as formas do mundo.

Essa inclinação de passagem, não figura no espaço da extensão e no tempo da sucessão dos instantes, pois esses já dizem respeito ao mundo apreendido pelos sentidos, que por sua vez habita a mesma dimensão. Não pode ser abstraído, pois o movimento de abstração esquadrinha a realidade a partir da um recorte que se apóia nos limites da reprodução de uma identidade que faz com que as formas se encaixem nas linhas através de pontos determinados no espaço. Se partirmos de uma perspectiva que nos coloque frente a frente com o abismo referencial da falta de suportes para apreendermos o mundo que nos chega pela percepção sensivel, temos que aprovisionar um sentido provisorio que nos permita referir as coisas a partir de uma abertura que nos remeta, continuamente, a transitoridade dos elementos que surgem diante dos sentidos e desaparecem imediatamente após, sem que se possa fixar um significado. Como, porem, dizer esse mundo, quando o que fica são apenas intensidades que nos tocam como raios que desaparecem logo apos manifestar seu brilho. A solução, talvez, pareça estar ligada muito mais ao ato de dizer as coisas e o mundo, uma vez que ao utilizar os signos para designar os objetos que se abrem a percepção criamos, imediatamente, uma relação identitária que nos rouba a riqueza da multiplicidade que está diante de nós nesse encontro. Daí, a necessidade de um desvio na fala, para que ao dizer nos coloquemos no espaço dos imperativos que emanam do mundo como um jorro ininterrupto de novidade; na exata dimensão do precursor sombrio, na inclinação mínima que retira as potência do seu estado de equilíbrio e as lançam no mundo, nos vacúolos de solidão e de silêncio. Como, porém, fazer cessar as vozes carregadas de significados fixos e ainda assim manter o discurso algo inteligível, mas ao mesmo tempo capaz de liberar as intensidades, os brilhos e as cores que invadem a percepção? O desafio de seguir o brilho evanescente da transitoriedade dos elementos oriniginários está ligado a capacidade de virtualizarmos o mundo.

Uma possibilidade de pensarmos a virtualização seria pensá-la como processo de acolhimento da alteridade, onde as fronteiras nítidas dão lugar a uma fractarização das reparticões e dos limites das formas e da extensão. Falamos aqui de um virtual que é a potência de desterritorialização dos limites que engendram espaços ordenados e fixados por seus significados identitários. Virtualizar, então, seria a capacidade de frequentar um espaço não designável, habitado pelas potências da entidade considerada e que se abre como um complexo problemático, onde as soluções ainda não foram dadas. Justamente ali, no nó das tendências ou das forças que encontram as circunstâncias, no infinitesimal instante das ressonâncias criadoras do mundo. Na inclinação mínima de um vazio máximo onde o caos desagregador escapole para o tempo e o espaço. Esse desvio sempre se dará de forma aleatória e para alcancá-lo há de se abrir mão dos suportes tradicionalmente construídos ao longo da história do conhecimento humano já localizados do espaço das formas fixas e ordenadas, responsáveis por garantir a perenidade do mundo habitado pelos seres da linguagem. Porém o desvio, rigorosamente, é o princípio da vida. Existir, antes de ser algo que assinala a estabilidade, a permanência, a fixação, é um desvio do equilíbrio; se há coisas, se há um mundo é porque eles são divergentes em relação a um estado original integrado. O balé da vida se dá em giros de declinações sobre um eixo móvel, em um movimento que se põem sempre fora de todas as coisas, num ato de singularidade que precipita o movente num turbilhão aleatoriamente constituído. Contudo, descrever este movimento requisitou, por muito tempo, a leis de uma dinâmica onde os atratores fixos desempenhavam um papel fundamental na descrição de cada passagem de um ponto inercial a outro. Por isso, se quisermos avançar para alem desses suportes descritivos temos que apelar para um principio do movimento que não se apóie em um ponto no espaço geometricamente ordenado mas num atrator definitivamente estranho ao princípios dinâmicos tradicionais. Nesse ponto, o processo de virtualização que teve lugar na sobremodernidade é a chave para a comprensão que nos lança em um discurso capaz de se fundar no desvio mínimo do precursor sombrio. No seu rastro chegamos a noção da diferença pura, como um excedente virtual resultante  do aumento da velocidade das trocas entre os conteúdos conectados em uma grande rede. O processo de virtuaização sobremoderno se passa através da capacidade de fazer trafegar, numa velocidade absoluta, em fluxos turbilhionares das chegadas sem partidas, onde o movimento se dá na dimensão do tempo real em espaços inextensos. O resultado desse tráfego em tempo real é a liberação de forças não relacionadas que escapam da ressonância originária de suas ações recíprocas e se apresentam com forças livres, como uma diferença potencial excedente, especulada, que escapa da relação do exato múltiplo que as combinam. Liberadas das cadeias das ressonâncias esse excedente potencial retorna a dimensão das diferenças puras não combinadas e encerradas em si mesmas na sua meta-estabilidade e como temporalidades múltiplas no espaço infinito.

Voltemos ao precursor sombrio, esta potência entre o equilíbrio e o desequilíbrio, ou limiar da passagem, estado estranho de mudança de fase, que vibra entre o ser e o devir. De saída podemos relacioná-lo ao conceito de "clinâmen" ou a declinação mínima que efetua a passagem entre essas duas fases, agindo como operador mínimo da transformação em geral. Deste modo, diríamos que se a existência do mundo é o deslocamento do equilíbrio, quando esse desvio é nulo, não há nascimento. Entretanto, se ele  é mínimo, a voluta se inicia e o objeto se constrói,foge para frente, desenvolve-se e desdobra-se, onde nascer, existir e morrer são apenas variações dessa dinâmica fundamental da transformação dos corpos através das ressonâncias. A partir daí nasce o tempo e a extensão da matéria; a vida dos homens, trabalhos, batalhas, rivalidades, honras, trevas, seus movimentos e sua curta história. Esse movimento de individuação, passagem para o mundo das fases, só é possível ser pensado a partir de um elemento meta-estável como operador dessa passagem e potência de disparação, onde a diferença existente entre as singularidades dos sistemas integrados age como energia potencial, diferença de potencial que desencadeia as ressonâncias  como um motor em si mesmo de onde se desfiam traços diagramáticos por onde trafegam as repartições de potenciais em forma de singularidades discretas, ainda não individuadas, mas tidas como puras tendências, que serão combinadas e comunicadas como informações de um sistema que passa a se bifurcar nos diversos níveis do mundo, da matéria e da vida. Diferente do equilíbrio absoluto, o equilíbrio meta-estável se caracteriza por um estado de homeoestase onde as energias potenciais assumem um valor máximo mas mesmo assim o sistema está em equilíbrio estável dado o movimento de rotação muito rápido das forças de tensão. Essas forças não agem nem sofrem ação recíproca, mas se movimentam livremente carregadas de toda sua potência até que pela supersaturação desse estado homogêneo acontece a passagem para a os estados individuados das ressonâncias onde todas as partes do sistema passam a sofrer a ação de todas as outras partes, não havendo mais forças livres, mas apenas as forças relacionadas nas formas da matéria e da vida. O nascimento do mundo seria então o milagre do desvio de um equilíbrio homeostático pré-individual para um sistema onde as diversas formas que as energias em circulação assumem e relacionam-se nos ciclos homeorréticos da matéria e da vida. O caos original, ao invés de se constituir por choques  e encontros aleatórios no espaço vazio e infinito, se apresenta como a coexistência de forças livres em uma circulação onde os as potências não se relacionam, se chocam ou se encontram. A atualização da circulação de forças é como uma diferencial e mudança de sentido, diferença infinitesimal que gera o sentido a partir de um feixe de paralelas em um campo uniforme, dando origem aos vetores no campo espacial da extensão.

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Quando pensamos a sobremodernidade como a era onde a capacidade de virtualização das formas da matéria e da vida, esbarramos no mote que que acompanha o existir dos seres da linguagem, atônitos pela transitoriedade do movimento do mundo que invade seus sentidos, cuja sua vida é o principal exemplo. O esforço sobremoderno embora se assemelhe as demais tentativas de restituir a ordem e o equilíbrio a uma realidade marcada pelo fluxo das constantes transformações do devir, vem diferir delas na medida em que é o excesso de multiplicidade e de devir que levará esta tarefa adiante. Na perspectiva dessa multiplicidade, os dispositivos de criação e equilíbrio da ordem sobremoderna trabalham através do escoamento do devir  em uma distribuição fragmentária. A partir da criação de diversos mundos possíveis que se intercomunicam através de conexões cada vez mais velozes e significações cada vez mais voláteis, o princípio da mobilidade desse fluxo, que se distribui através de ressonâncias múltiplas, consiste na possibilidade de multiplicação da diferença de maneira ilimitadao. Segundo as idéias da mecânica clássica, não existe sistema que esteja subtraído a toda e qualquer ação externa; todas as partes do universo sofrem, com maior ou menor intensidade, a ação de todas as outras partes. Assim, não existiria força livre ou fora do alcance das ressonâncias, uma vez que os sistemas dinâmicos se constituiriam como um conjunto de forças relacionadas. Contudo, se imaginamos que a multiplicação das ressonâncias através de um fluxo em alta velocidade é viabilizado pelo tráfego nas redes informacionais de escoamento do devir, composto de uma pluralidade de forças irredutíveis em luta, essa multiplicação se processaria num campo de espaços inextensos em um tempo infinitesimal onde o aumento da velocidade das trocas e a redução dos espaços e do tempo criam diferenças de intensidade através da multiplicação da potência de uma força cuja a ação instantânea a libera para uma nova ação, transformando-a em força não relacionada, livre e, portanto, excedente. Este excedente é redistribuído sem que entre em uma nova relação de forças, mas assumindo a função de potência criadora que reconstitui os recursos, as reservas energéticas e os dispositivos geradores de atos.


As forças, então, escapam do controle da definição que visa adequar os objetos da percepção ao conjunto limitado de significados. Elas estarão sem livres para exercerem sua potência múltipla, num ritornelo, onde a linguagem deverá transformar-se em uma glossolália, onde o falante se torna incapaz de repetir os enunciados já pronunciados no seu gaguejar de palavras frouxas. O jogo entre o significante e o significado passa a encarar a lacuna designante como um silêncio onde sobram apenas murmúrios e ais, deixando a equivocidade o levar alhures, sem que se precise negar ou adequar. Descubrir o múltipo em cada abertura, novas possibilidades em cada relação de forças, que se desmancham antes que se consiga defini-las, escorrendo entre os códigos dos enunciados. Os códigos rizomáticos da sobremodernidade são justamente esse emaranhado circulante onde não se pode mais definir partidas ou chegadas, mas onde cada desfiar de sua trama traz consigo um nó de tendências."Quais seriam as forças em jogo, com as quais as forças do homem entrariam em relação? Não seria mais a elevação ao infinito, nem a finitude, mas um finito-ilimitado, se dermos esse nome a toda situação de força em que o número finito de componentes produz uma diversidade ilimitada de combinações" (Gilles Deleuze). Esse é o discurso da sobremoderniodade. Os vacúolos de não-comunicação sobremodernos põe o falante diante dos signos vazios, ou melhor, dos impetrativos que deles emanam, como um complexo de tendências, para além daquilo que ele designa em cada objeto que invade os sentidos, na sensação desses encontros e nó de tendências que está além das designações dos significados e onde a impossibilidade de aprisionar aquilo que emana dos signos, em uma identidade entre o observador e o objeto, libera potências impossíveis de serem descritas pelos estoques unificadores da memória. Diria, que liberta o falante do signo e o leva ao esquecimento. Nesta galeria neutra e mista, o passante ou passador, subitamente tornado neutro, misturará em si as naturezas, as línguas, os gestos, até neles se dissolver e perder. Se a sua vida o fez errar em muitos braços de mar, o seu corpo e o seu espírito terão aprendido e misturado tanta diversidade ao ponto de alcançar, em si e sobre si, a brancura imaculada do próprio lugar de onde se possa dizer seu. Discutiu-se muito a aparente apatia da geração pós-ideologias e hoje se começa a ter noção que a aparente apatia, ou neutralidade é justamente a maior potência da atual geração. A falta de identidade e a assunção de uma multiplicidade transitiva, a todo instante, é o movimento que tem conduzido essa geração para uma nova forma de lidar com o devir, justamente pelo excesso de devir. A entrada dos dados, ao alimentarem as máquinas de processamento, não permite mais que se preveja o resultado, pois a saída pode se comportar imprevisivelmente, oscilando uma série de vezes, uma vez que não encontram-se totalmente ligados numa relação mutua fixa, onde cada ação possa determinar uma reação linear específica.

Se através do precursor sombrio, as potências declinam minimamente até tocarem-se em um espaço e tempo infinitezimal e produzirem as formas do mundo, é através dos movimentos acelerados dos conteúdos circulantes que se decompõe as formas em potências não relacionadas lançando-as de volta ao estado meta-estável, onde a unidade dos conteúdos conectados em rede, assume o caráter de pura multiplicidade e indeterminação de forças não relacionadas, isoladas uma das outras pela fragmentação rizomática do espaço da rede. Neste não-lugar, o multipertencimento dos ocnteúdos alterados instantaneamente pela ação contínua dos enunciados das formas de expressão, estabelece um jogo, cuja dinâmica conta com a ação das potências infinitamente multiplicadas. Essas frequências se distribuem a partir de um espaçamento, no qual a multiplicidade das partículas intinitesimais que constituem os conteúdos e suas relações constituem um espaço unidimensional meta-estável. A fala perde, então, o suporte em pontos fixos do espaço da representação e ao invés de remeter os sujeitos a objetos em um campo delimitado de significados fixos, oscila como frequência livre de uma absoluta diferença, isolada na teia da rede, conectada a todos os conteúdos mas reivindicando sua singularidade, uma vez que o funcionamento de uma rede não dispõe os conteúdos de uma forma sistêmcia e, portanto, atravessa a distinção usual entre palavras e coisas,  lançando os conteúdos e as expressões num movimento fractal cada vez mais rápido no ciberespaço. Assim a diferença surge pelo excesso de conteúdos circulantes, liberando um potencial excedente que se desloca continuamente e criando, exponencialmente,  ilimitadas possibilidades, diluindo as formas do mundo em rastros de passagem dos conteúdos, onde sobram apenas o seu eco; intensidade que vibra e que se afirma como tonalidade de um silêncio eterno dos vacúolos de solidão.

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terça-feira, 9 de agosto de 2011

Open Sky

 

Chuva

Sky, most of time is put as synonymous for infinity. His unlimited frame and absence of borders contrasts with a space occupied for all extents and material things differenced through sensitive experience. Colors and forms extended above our heads are just limited through the horizon line that apparently rounding ourselves alongside  a space occupied for the material objects superposed. As a fold that distinguishes the volume of figures fixed by  our view, horizon appear as the last limit of  sensitive perception. Beyond this line we have only the chaos of possibilities itself  dependent on the abstraction that creates a plan to project the forms of our thought . Our senses are not able to acquire each form  unless the abstraction fixes the world apprehended by the perception, creating a support for the thought and for each thing represented by it. If  abstracted forms support the thought it is the language that supports  abstracted forms. The world acquired by the sensitive experience, represented by the thought and described by the language come to us in order to make us  able to separate what is observed from the point of observation where the subject is and where each possibility  could be switch flipped into the world of forms. This is the plane where the act of knowing tends to coincide with the act that generates the reality, and we can call it plan of reference. A space where are constituted the limits or borders in which the subject confronts the chaos of all the possibilities as a plurality of worlds that emerges from a continuum state of flux. This is the plane from where  the differences between the contents rises and allows the subject to say the object. The differences appear when the subject itself overcame the contents where it is mixed itself and the excitation generated by this movement is connected in a chain of synthesis that constitutes the process of the knowledge.  If we intend to get back to the potential that underlines each content into the process of the knowledge we will face the abstraction as the first point where everything comes from and enter into the existence defining the reality of each content that appears for the subject of the abstraction. Everything we perceive, we experience and think. From that point comes the distinction between inside and outside, subject and world.

Abstraction creates measures for view and for description of what comes in a sequence of events in time and space, regulating this sequence  and addressing things in a continuo movement where one content is related to another. If we want to reach the pure duration of the events outside the limit of time and space we have to refuse to use the abstraction as a tool for the thought. How could we be able to overcame the abstraction? The answer should be beyond  the last limit of each image of thought where we find a  pure dynamism that refuses determinacy and escapes from  traditional categories of the abstracted thinking an the language as the support to the abstraction. The problem must drive us to a language that is free for operate the trip to a place of the pure dynamism, a place where thought is formed without  fix forms of the abstraction and where we are able to hear the sounds of the silence, absences and gaps, where we can be directly in touch with the force of the virtual. Would be better if we already could define at this moment the concept of virtual pushing the sentences too far and ahead the limits of the language of the abstraction, recovering the potential lying under the words which is out of the field of actualization and escapes all measure because it is in a continuos and unstoppable movement that only acquire forms of the abstraction through a slowing down that produces the deferences throughout we can say the world apprehended by the perception. Out of this process we find an operation that doesn't imply any point of departure or arrival because it stops up the breaches of deference and repetition and produces a time taken as a whole, which leaps over the rupture of the repetitive present and open a space without extension only populated for the intensive multiplicities. Enter into this universe require  specials warners if we don't intent to fall down into a empty hole of  a complete absence of meaning taking account that we start sailing a river that is a mixed liquid that one may never stop shaking as originally described by Heraclitus. If we overcome the abstraction as the last limit of the reality we enter in a dimension that could be considered unthinkable and indescribable at first sight, unless we submerge under a river without surface, bottom or bank in a series of "nonplaces" where language escapes and where is constituted the ensemble of the actual and the virtual.

To mark the path where we could have the contrast between the actual and the virtual as a requirement to a non abstracted thinking we should turn back to Nietzsche and to his critique of the history and the importance of the memory as a tool that fixes the present and creates a field where time is archived as solution of thinking continuity,  organizing  the past and the future that evade the present, transforming the movement of life into material extensibility. The definition of nature as posited by Nietzsche to describe the feeling of seeing the herds grazing that don't know what yesterday or today is. They spring around, eat, rest, digest, jump up again, and so from morning to night and from day to day with its likes and dislikes closely tied to the peg of the moment, and thus neither melancholy nor weary. At the same time we could turn to the definition of freedom in Spinoza where a thing is said free when it exists by the necessity of his nature and when in itself is determined to act. In that view a thing necessarily exists if there is nothing constrained its. He says that the potentiality of existence is a power and the non-existence is a negation of power. Thus he is not talking about the autonomous will of the subject but the inhuman power for life. I call this "discipline of being". Neither categorical nor hypothetical, I think the imperative impulse as natural. Everything is natural if we consider the nature as a set of forces in a constant relationship, what Nietzsche calls the forces of power or "quantum", as well as particle physicists. Forces that form and sustain everything that exists. Forces that do not be constrained  because  following shifting, changing and trying to find a space for expression. Forces generating forms, dense matter and matter invisible to the eye, organic and inorganic, forms of content and forms of expression, bodies, instincts or thoughts, energy that keep things acting to be. According Nietzsche, "when something happens to this or that way and not otherwise, is not the consequence of a principle of a law or order but it shows how forces are at work and how they exercise power over other forces (...) A quantum of force is defined by action that  it produces and by the effect that it  resists".

Everything that exists  comes down as an interactive process of forces. We call these forces, then, forces of nature, once we consider nature as the essence of all things that exist and through his nature exists this or that way and not another. Each thing carries the power of existence in a specific way and that continue to act  even when face a  power from anything else, when any other power to intervene and prevent it runs its course. Power of the rain falling and that stop falling  when the earth appear as the power that moves and makes it run in a riverbed until the power of the sun starts evaporating it and makes an encounter with the power of the cold that condenses and makes a cloud. The power of sexual excitement of a body with another body that keeps you excited tan changes this excitement by the explosion of an orgasm that makes the power shedding in semen which flows to find the strength of an egg that prevents it from continuing running as semen through fertilization that releases the egg which grasps the power of the meiotic process that makes it multiply in ever larger units of life. Everything is power and  forms of the world that appear as a relationship between them. The power of observing and describing this process is a state of the beings of language self called rational animals, which consider the forms of the world and organize the space making these forms take on particular significance in the chain of its relationship with the world. The ability of getting the contents that rise into the sensitive perception and through the cognitive syntheses creates the boundaries between the dimensions of interior, exterior, height, width and depth, separating contents into the time and space and then cataloging its forms and recording it in its memory. It makes the rational animal  reproduces it by the names that define their differences until they reach a critical difference that separates it from everything else. Then the beings from memory  construct a particular world through the language and this world is compound of living and inanimate objects that by the taxonomy of the contents of nature this world towers over everyone as a sort of privileged habitat for beings.

This  being, thus fully differentiated from other beings but unable to understand how it got there, becomes  being-man and it starts looking for something that exceeds in power the various powers in nature to help him to rule over them. As the flow of power in nature is impermanent, considering the action of the various quantum forces that produce and resist against these actions, man tries to find  absolute power that does not changes its essence itself and because of this prevails over all others and that way establish a limit between the mutable and the unchangeable, the impermanent and permantente, since his life seems to protect him from  the avalanche of  transitoriness that threaten return it to the undifferentiated state from which sprang to establish itself as observer through the ability to retain the present moment in his memory and turns them in history. Out of this history from where the being is told by himself man and figures mixed with other beings, we cross the limits established to describe the process of forces at work by meanings from a language that express original causes and final effects for the highest heaven over his head or into the recesses of the pit under his feet. These limits were established by various representations throughout human history and always protected the beings of language from the threat of lightheadedness that would dissolve him back into nature as a power along with the other, without history, memory or consciousness of the process of being in the world.

However, If we intend to represent the field of forces in its intensive relation, out of the ordinary sense of the dense matter occupying a extensible dimension, we have to deal with essences that could not be confused with  the space of extension where the forms lie at, but a space of multiplicity of powers in as infinite movement. In this plane, thinking consists in a deterritorialization of all forms of classical unity of the dense matter to a multiplicity of singularities and lines in perpetual variation. Multiplicity is a infinite movement of powers into a chaos of coexistence  and its essence is a frequency as vibration of power. The world of existence appears to us when the powers tend to take leave of chaos, abandon the delicacy in favor of regularity and predictability that provokes a crystallization, tracing vectors between chaos and thought. If we intend to encounter chaos in a pure and untrammeled state as multiplicity of powers in a infinite movement, we have to cross the limit of the forms through a thinking that is able to enter in the infinite variability, moving itself at infinite speeds of chaotic forces. The dense matter that occupy the extent space arises  from chaos as a relation of forces compounding the fix forms. If chaos consists in a ceaselessly modulation field of differences,  the acceleration and stops of these related powers,  distributes the intensities and reduce the difference to identity. The actualization processes moves from the proliferation of differences to their reduction and is given as the equalization of difference. Difference in this sense is the absolutely different, undetermined forces in an infinite flux having the difference itself as its condition and this movement is the coexistence of different rhythms as a generative force. Its  different rhythms could be referred in a potential energy as the fundamental element of a integrated state, where the instability of this flux is directly related to the power and its activity. The more  a state is far from equilibrium the more is the potential energy or the free energy in its flux. Free energy is an infinite movement of powers in a state of absolute difference. The state far from equilibrium also can be described as a repetition of this absolute difference as an unpredictable stream of effective new.  The state far from equilibrium is the dimension of the virtual that is a movement of forces or tendencies in its absolute process of difference. The virtual is the pure difference , the new, absolute different that repeats itself as unpredictable stream of effective new, doing each time as the first, in a series that is always able to differ from itself. This is what Nietzsche used to call "eternal return". The return of the new and the absolute different. Matter as a form appear when this series of divergent forces result in a form as product of a difference, correlated  frequencies with  an appetite for novelty  that extends the play of difference within a field of actualization.

The reality perceived by the human sense could be thought as a intensive flux from nowhere to no place itself in a movement that can’t be describe in terms of a geometric spatial trajectory but only in a field where frequencies enter in a different type of relation. Frequency is a way as the forces are tensioned  and expressed in terms of vibrations. There are two types of relation for frequencies. One produces integrated systems, where dos not exist  a interaction of bodies or particles and an other that  produces a non integrated system, where a interaction of bodies is given by resonances. The correlation of frequencies proceeds by minimizing variation and tends to confine the forces into the matter to increasingly narrower cycles of becoming, resulting in a surplus code, matter flow or matter-movement, in a sedimentation process that leads to a difference of degrees of a non integrated system. At this point we could define the actual as a process of stratification of a self-organized system. At he end of XIX, Henri Poincaré demonstrated the fundamental difference between integrated and non integrated  systems. He showed that the most of dynamic systems were non integrated. An integrated dynamic system is  said as a system where the variables could be define in a way that  forces are free and the behave of this system itself becomes isomorphic. He demonstrated that only a reduced classes of dynamic system were integrated and that this integration is threatened by the existence of resonances between grades of freedom in a system. Resonance could be said as a relation between frequencies and it is produced when one of the frequencies is equivalent to a entire multiple of another. Integrated system could be represented as being constituted by bodies without interaction, in a field of a qualitative pure movement of differences. The dimension of tensions and vibrations that expands themselves as a infinite movement of a pure difference is the dimension of virtual. In the other hand, non integrated systems represent a field where collision of forces makes  a distribution of differences speeds more symmetric and creates correlation the forces into a correlated flux that reduce the pure difference, or the difference of kind, to difference of degrees of energy. The light emitted and absorbed, the coupling of sounds and quantum of energy, are the results at differences between two levels of energy as the limit of  expansion and pure duration of the virtual. The least contracted point as a frequency that runs to a most contracted, interactions as the way as the differences of intensities are communicated into a space of extension. Thus the matter is a space of the contraction of vibrations in a point of chocks of energies quantum that determine the field of actual individuation. Until this point its not requested any other element out of a full multiplicity that assume a spectrum of a monism of a integrated system. The infinite movement is a eternal return of an absolute difference as  duration that is expansion of forces, energies, powers or frequencies. However the main question is given in that point. How the resonances take place in the process from the virtual to actual field?

Backing to the pre-socratics thought we find that an element introduced as responsible for the passage from the virtual to the actual dimension. They used to define this element as  "clinâmen" . According to Lucretius  it is the unpredictable swerve that occurs "at no fixed place or time": The first atomists used to say that when atoms move straight down through the void by their own weight, they deflect a bit in space at a quite uncertain time and in uncertain places, just enough that you could say that their motion has changed. But if they were not in the habit of swerving, they would all fall straight down through the depths of the void, like drops of rain, and no collision would occur, nor would any blow be produced among the atoms. In that case, nature would never have produced anything. According to the first atomists, the global nature is formed by the set of atoms in a static and entropic isomorphic, in the sense that would mean death. Things would be statics in a perpetual flow. Thus the atoms would be immortal and would be in free fall, without touch itself and in a parallel flow of a stream equivalent to the principle of inertia. The "clinâmen" would be the slope in the inert atomic chain as a driving force or minimum angle that produces shocks and twists in the time and space of the dynamic. In this sense the original state of things describes by the atomists is closer to the integrated system describe by Poincaré and the "clinamên" is closer  to the resonances. Therefore, the isomorphism of the integrated system is the state of coexistence of a multiplicity of quantum in a static movement in a virtual field of a eternal silence of the infinite spaces. When this silence is broke, the actual world of the correlated forces appear and brings together the life. For the fundamental states of matter, atom and void, tact is the condition of possibility of experience. The world,  objects, bodies and even the soul are part of a decline from a integrated system. The nature declined exactly when it was born and it will continue to decline back to death that is the integrated and isomorphic state of non interacted quantum of immortal energy, that is immortal only because it wasn't born yet. The process of the reality is a relation of forces in its resonances, going down in a process of existence, in chocks and interaction with other forcers.

The question is: What makes a force to insist, persist, hammering, even when other force opposed? We would say that persistence is the nature of the force that causes it and tends to something without being able to release this particular action. If we consider that every form is a relation of forces and the whole body is the last limit of unit forms, we would say that certain bodies, on trend, they insist on something because of their own nature, without any other force is able to stop it but exterminating it. It seems something easily observable that the nature of things carries, in itself, the power of continuity, but the relationship between these powers in the formation of the many things. At the end of the day it  is the point that must be considered here. When is said that the infinite movement  is compound for the virtual and the actual, even so we can't  explain why  is processed the passage between these two dimensions. What makes things to be is here an engine. A producer of motion, a force which no one knows. How to avoid the producer's output, and so on? How to stop the leak source? How to avoid a first mover transcendent, outside the world of nature as separated element. Transcendence has helped man in his task of building human societies through different conceptions of it.  If the transcendent in some groups remains in traditional garb in others it takes on a supposedly more appropriate criteria of rationality, however it presents itself as an element separate from the flow of nature, able to give humans a stable world, known and secure guaranteed the necessary order of the group or the conservation of the species. Once again, in search of the order of the natural processes by streamlining the human species set out in search of best practices aimed at ensuring its survival, even in codes that are intended to regulate the conduct, establishing ethical and legal principles that define acceptable behavior and subscribe it to moral and legal requirements governing each human group. The will to power or the power to exist, is regulated by an institutionalized power devices in the various spheres of the social group, taming the instincts and subjecting the natural and inhuman power to the test of an ideal utilitarian conservation of the species. Would be fine if we could overcome  the sovereignty of subject and its regulatory process to acquire the internal dynamic that assure the material reality of both subject and object, subverting the regulatory-discursive stratum of power. Sometimes the risk of being out of this stratum comes from the habit of build new spaces in the ordinary sense of a oriented topology that only substitutes a stratum for another one, providing another privileged shelter for the sovereignty of consciousness. The attempt to achieve a horizon of an open sky must lead us to plane where the obstacles are removed, spaces cleared, edges smoothed and resistance reduced, reconstituting the plan of the virtual integrated field.

In that point we would like to invoke the changes processed in the time of high speed technology and called by us super-modernity, as a tool that virtualized the bodies and liberated lines of scape of a discontinuous time and a non extensible space that must not be thought in terms of geometric plane of succession but in a moving of non relational forces. If the virtual plane is a pure duration of the difference, and the pure duration is a integrated field of forces in infinite movement, the possibility to reach the forces out of the resonances of entire multiples, in a zone of indistinction of a vanishing horizon, where places disappears in the geographic annihilation of distances and revels us the void of a timelessness and an open sky.