domingo, 23 de março de 2014

As Zonas de Indiscernibilidade - Do Real ao Imaginário

Se a cada manhã a agitação luminosa ao se encontrar com os corpos opacos, produz imagens que irão se formar na retina, após um piscar de olhos, é no processo coordenado pela memória que essa imagem se torna capaz de ser reconhecida através das características comuns que se reproduzem no instante seguinte. Separadas por instantes sucessivos produzidos pela memória elas se separam uma das outras a medida que vem ocupar um lugar no quadro produzido pelo observador. Cada quadro que o sujeito tem diante de si é um fotograma animado pela memória, que é capaz de recuperar o fotograma anterior e reproduzi-lo no instante seguinte onde o sujeito pode verificar as semelhanças e diferenças entre as imagens do quadro. Olhando para o lado de fora do interior da livraria onde agora escrevo, tem-se a visão de um escadaria que no seu cume se abre ao exterior. Não se vê portas ou janelas mas apenas uma grossa coluna que não se sabe estar de que lado. Vez por outra alguns transeuntes se desviam do trajeto transversal por onde se movem, passam ao lado da coluna e começam a descer os degraus. Só nesse instante se poder ter certeza de estarem no interior que se desdobra até o sofá de onde tudo observo.

 

A sensação da dúvida que permanece separada pela coluna lá no alto só é interrompida pela visão dos pés outrora escondidos e que só se dão a ver no primeiro degrau escada abaixo. A tal coluna se sobressai pela constatação de que para além dela avista-se menos das pernas, quanto mais estas são lançadas na direção oposta da escada, o que acaba sendo definitivo para dimensionar os lados, já que daqui não se enxerga o chão da rua ou o assoalho do lado de dentro. A medida que as pernas avançam para cá da coluna vão ficando mais a mostra, até que no limiar do primeiro degrau do lado de cima revelam os pés que sustentam seus movimentos. Quanto menos pernas se pode ver, supõe-se mas distantes do lado de dentro os corpos. Alguns deles só exibem da cintura para cima e no limite oposto do  lado de fora percebe-se somente cabeças em movimento  de mão dupla. Quando uma das cabeças ambulantes, repentinamente, mudam sua trajetória, pouco a pouco se pode notar corpos surgindo debaixo delas, revelando pernas que após cruzar a coluna iniciam a descida do primeiro degrau, finalmente fazendo aparecer os pés que os levarão para o interior onde estou a observa-los. 

 IMG 0193

Por um mero acidente, após trocar meu assento no subsolo por outro em uma mesa localizada dois andares acima, ponho-me diante de um vidro disposto diante da porta de entrada. As mesas que ocupam toda a extensão de sua lateral torna-o opaco, o suficiente para refletir imagens como um espelho. Só aí pude ver a calçada do lado de fora por onde se movia tudo do lado de lá da pilastra. Curiosamente reparo que a perspectiva se invertera. Agora, quanto mais distante da pilastra para o lado de fora, os corpos vão surgindo abaixo das cabeças até aparecerem por completo em um ponto qualquer na metade da calçada e começar a sumir aos pouco, sobrando apenas as pernas do joelho para baixo ao avançarem até o exato extremo onde antes apenas se viam cabeças em movimento.  No limite do lado de fora refletido pelo vidro, a dança das cabeças dava lugar a de pedaços de pernas com pés. A pilastra continuava compondo minha visão, só que agora já se sabia que estava do lado de dentro. Como a escadaria sumira da cena, a pilastra passava a limitar o ponto onde as cabeças sumiam depois de cruza-las interior adentro. 

 

Passo a observar os dois extremos e o ponto onde as imagens se flexionam. Do lado de lá, os pés que carregam apenas pernas do joelhos para baixo,  começam a dar sinais do resto do corpo imediatamente após mudarem de direção. Ao se moverem em diagonal cruzavam o ponto na metade da calçada onde se era possível ter a visão dos corpos completos, até que no caminho em direção da pilastra iam se reduzindo novamente à cabeças solitárias que desapareciam por completo do lado de dentro da livraria. Como o olhar que a tudo fitava vinha do mesmo sujeito, todo o resto estava dependente do ponto de vista desse sujeito em relação aos demais elementos que participavam do quadro, exceto quando um outro anteparo gerava reflexos que mediava as imagens além dos corpos opacos, cujas imagens eram impressas na retina de quem os observava. Imagens mediadas por anteparos fora do sujeito; cópia de cópias; simulacros que alteram a visão. É a partir desses simulacros que se introduz no processo a equivocidade e a indeterminação do que se é capturado pela percepção sensível, quer em forma de imagens, sons,  ou texturas. Cópias produzidas para além dos anteparos do sujeito, capazes de interagir como o esquema de reprodução das sensações e da fixação de identidades pela memória, como que num jogo de espelho onde se é possível liberar um elemento da memória que será fundamental para aquilo que nos propomos aqui. A saber: a imaginação.

 

O meio natural é o palco onde misturam-se, animais, vegetais, microrganismos, partículas e toda uma galáxia a insinuar tendências; “apetite” e “esforço” pelo qual cada coisa persevera no seu ser, insiste e subsiste, e onde cada uma dessas coisas não param de emitir signos que são sintetizados pelo sujeito através de sua percepção sensível,  memória e abstração, traduzidos em significados e  ditos pela força da imaginação. Podemos aprofundar esses processos operados pelas faculdades do sujeito dividindo tais sínteses em passivas e  ativas, referindo às faculdades passivas a sensação e às ativas a memória.  A partir daí subdividimos a memória em centro produtor de duas séries distintas, uma na ordem da razão e outra da imaginação. É através da memória como uma faculdade ativa que os sujeitos humanos se distinguem das demais coisas, para as quais a memória é o conjunto das intervenções que constituem sua existência. Quando tomamos a memória como uma centro produtor da razão,  nos referimos a capacidade de reunir registros que permitirá o sujeito abstrair o mundo e através da razão representa-lo de forma a estabelecer as medidas através das quais  poderá agir, produzindo os meios onde passa a ser mover à luz das necessidades geradas por cada uma das finalidades específicas. Já no que se refere a ordem da imaginação, a memória se coloca como um centro de registro de imagens produzidas pelas associações dos signos emitidos pelas coisas com os signos produzidos pelo sujeito que significa o mundo ao redor de si pela linguagem. O sujeito pode, assim, ultrapassar o dado, através das associações da memória que os organizam como um sistema articulado, impondo a essas articulações, pela imaginação,  uma constância que elas não tem por si mesmo.  Se é pela razão que me oriento no sentido de produzir medidas sobre os dados que minha retina captura, como o movimento dos corpos e sua extensão, bem como a dimensão dos lados de dentro e de fora de um espaço, é a imaginação que me permite articular esses dados e dizê-los como o resultado de minha observação em forma de palavras.

Um comentário: